quarta-feira, 13 de junho de 2012

A CHEIA DO CAPIBARIBE E O MEU LANCHE NO ARCA


*Crônica das quartas-feiras - 04

Em meados de 1966 eu, fisicamente, era assim: se estava de frente, pensavam que eu estava de perfil; se estava de perfil... Ah, pensavam que eu tinha ido embora! Magro que só um graveto, eu vivia às voltas com algumas graves preocupações, naquele tempo: se estava hora da pelada no campinho da Praça do Hipódromo; se já tinha começado a passar National Kid na TV Rádio Clube, Canal 6; se a figurinha de Bita já estava à venda na banca da esquina, pois eu queria completar o meu álbum do Náutico Tricampeão. Ter 12 anos naquela época - eu falo de boca cheia - era muito melhor do que hoje. Pelo menos era mais livre, mais divertido e menos perigoso.

Em 1966, o Recife viveu uma de suas grandes enchentes. O Capibaribe subiu 9,20 metros além do seu nível normal, 175 pessoas morreram e mais de 10 mil ficaram desabrigadas.  Várias localidades foram inundadas, muita gente perdeu casa e todo o pouco que tinha. Os milhares de desabrigados lotavam os abrigos que foram improvisados em escolas, quadras esportivas, centros sociais urbanos e clubes, como a Associação Recreativa e Cultural da Antárctica, o lendário ARCA, vizinho lá de casa, na Estrada de Belém, em Campo Grande, onde hoje tem uma Assembleia de Deus. Pertinho do Hipódromo, onde moravam os meus avós e quase todos os meus amigos de molecagem.

Foi braba aquela enchente. Eu me lembro de descer a Rua do Rio (olha o nome!) para ver as casas com água até o telhado. Era um tal de cachorro perdido que dava pena. Como dava mais pena ainda das pessoas, atarantadas, móveis na cabeça, gavetas com roupas encharcadas e misturadas a bujões do gás no carro de mão. Um sofrimento infinito nos olhos e quase nenhuma esperança. A família de um dos meus amigos de bola perdeu a casa naquela inundação. Covardia! O Capibaribe não poupava nem os meus amigos...

No ARCA, o gerente  Pedro Soares, o ”Pedro Baiano”, tratava de abrigar a todos que para lá eram mandados. Generosidade era a marca daquela figura rara, que gostava de pegar no gol nas peladas de futebol de salão (inventariam isso de 'futsal' muito depois), amava o Santa Cruz e era colecionador de velhos discos de acetato, sobretudo os de Luiz Gonzaga, Ângela Maria, Glenn Miller e Anísio Silva. Para quem não viveu a época: esses discos eram aqueles bolachões de 78 rpm, pesados, com uma música de cada lado. Igual ao que me trouxe aos ouvidos, pela primeira vez, a voz de Elvis Presley, cantando "Love Me Tender".

Feito o registro, voltemos a Pedrão. Pois, o cara atendia todo mundo com carinho e disponibilidade. Arrumava um canto na sala de troféus para uma família com um recém-nascido. Preparava, ele mesmo, um prato cheio (feijão, farinha, charque e ovo frito) para um senhor que apareceu puxando uma carroça com o que restava de sua casa destruída. De lá pra cá e de cá pra lá, essa figuraça coordenava o trabalho solidário no ARCA, que teve todas as suas atividades esportivas suspensas, inclusive o campeonato infantil de futebol de salão, onde eu jogava e até fazia uns golzinhos, aqui e ali.

Naqueles dias, aquela era a minha rotina: pular o muro da minha casa e seguir para o ARCA, ajudar o povo. Eu e alguns amigos de pelada. Carregávamos caixotes com comida e roupa, subíamos nos pés de manga e tirávamos frutas para os meninos abrigados no clube, voltávamos pra casa e conseguíamos umas moedas que serviam para aliviar a barra de alguém com mais carência que nós. Era um corre-corre danado. Mas era uma satisfação maior ainda, ajudar aquelas pessoas, me sentir útil e, no final da tarde, ainda bater uma bolinha com a rapaziada, time contra time, no quintal do clube.

Numa dessas idas e vindas, eu - vestido apenas com um calção cinzento e surrado, magro que só um tiziu, descalço, cabelo assanhado, todo sujo de areia e lama -, ia para mais uma das minhas "missões salvadoras" quando fui seguro pelo braço por um homem alto, vestido de branco e com um chapéu de aba larga na cabeça. Fiquei sem entender o que ele queria. Depois descobriria que ele era da prefeitura e estava ali supervisionando as coisas.

- Venha, venha, menino! Não se preocupe, venha!

Eu fui, até porque puxado pelo braço. O homem me levou para a cozinha, onde um cheiro bom de comida já acordava no pessoal a fome que às vezes ficava esquecida por causa de tanto trabalho. Lá dentro, uns cinco meninos, do mesmo 'tope' que eu. O homem me levou à cozinheira e esta me deu um copo enorme de leite com nescau e um pão gigantesco com manteiga turvo.

- Coma que você deve estar com muita fome, coitado!

A moça da cozinha, o homem de branco, todos pensavam que eu era um dos desabrigados. Nunca os culpei pelo engano, pois aparência eu tinha. Além disso, daqueles meninos que foram levados a lanchar na cozinha do ARCA, eu devia ser, sem nenhuma dúvida, o mais magro e com cara de fome.

Expliquei que morava na casa ao lado e que estava ali para ajudar. Não adiantou. A moça risonha e corpulenta gentilmente empurrou o pão pela minha boca e eu não tive outro jeito senão saborear aquele inesperado e totalmente bem vindo lanche das 5 da tarde. Que, diga-se de passagem, estava uma delícia.

A pelada com a rapaziada começou logo em seguida. E entrou pela noite.

PS.: Na semana passada, eu soube que o bom Pedro Baiano morreu atropelado por um caminhão. Que Deus o tenha!

quarta-feira, 6 de junho de 2012

A "INICIAÇÃO" DE LUIZA NO ESTÁDIO DOS AFLITOS

* Crônica das quartas-feiras - 03


Dividida entre pai alvirrubro e mãe e avô rubro-negros, a pequena Luiza acabou jogando por terra os meus planos de levar um filho, no caso uma filha, comigo aos Aflitos para me acompanhar nos jogos do Náutico. Não teve jeito. No começo, eu ainda consegui por na menina uma roupa bacana do Timba. Era uma camisa de listras vermelhas e brancas, réplica do "manto sagrado", com o qual ela chegou a frequentar alguns feriadões em Itamaracá, na casa do avô Alício, que olhava aquilo tudo com um sorriso amarelo e uma plena e total desconfiança: "Mas, logo a minha neta!?". 

O tempo passou, Luiza cresceu. E assumiu sua neutralidade clubista com toda dignidade, para meu desespero velado. Mas, dos males o menor. Se não envergou mais a gloriosa jaqueta alvirrubra, ela pelo menos nunca vestiu a camisa de nenhum outro clube. Muito menos ameaçou sair por aí de vermelho e preto. Até porque aí seria um pouco demais para o meu pobre coração alvirrubro.

Mas, não pensem que não tentei ganhá-la para a hostes de Conselheiro Rosa e Silva. E ela foi ao campo, uma vez, sim. Nunca me animei a escrever essa história que já contei, algumas vezes, aos amigos de copo e de cruz. Um deles, o grande Fernando Menezes, rubro-negro, jornalista dos velhos e bons tempos, muito insistiu para eu que eu fizesse uma crônica. Mas, eu relutava.

- "E eu vou lá expor a minha filhota, Fernando?".

E não cedi. Até a semana passada. Almoçando com as minhas duas filhas num desses domingos preguiçosos e absolutamente necessários à felicidade de um pai, a história veio à tona. Luiza, como sempre, achou um "mico". Marcela, a mais velha, que é do Náutico embora "não curta futebol", morreu de rir. Decidi. Vou, enfim, contar a saga.

Luiza tinha quatro anos de idade. Com seus cabelos cacheados e suas bochechas rechonchudas, ela ficava ainda mais linda no uniforme do Náutico. Decidi que estava na hora dela conhecer os Aflitos, ir comigo a um jogo, torcer pelo Náutico, enfim. O danado é que, naquele ano. o time era de doer. Não inspirava a menor confiança. O ataque era cardíaco. A defesa, um coração de mãe. Mas, era hora da grande iniciação. Fosse o que Deus quisesse.

Escolhi a dedo o jogo. Dia de sábado, 3 da tarde (era horário de verão), um emocionante Náutico x Íbis seria perfeito. Jogo sem problemas, que o Timbu ganharia fácil. Afinal, era o Íbis. Risco zero. Diversão garantida ou uma improvável volta pra casa de cabeça inchada. Mas, claro, isto não iria ocorrer.

Como moro perto, fomos ao estádio pela manhã, onde comprei meu ingresso. Visitamos a sede, tomamos sorvete em Vevête, lendário vendedor que até hoje faz a festa no clube, vendendo seus sorvetes maravilhosos, de várias cores. Depois levei Luiza para olhar os Aflitos.

- Veja, minha filha, tudo isto é seu, é nosso, é da família alvirrubra - me ufanei num misto de orgulho e idiotice. À pequenininha, claro, não interessava nada daquilo, a não ser a delícia gelada que ela sorvia, maravilhada.

Voltamos para casa, almoçamos. Na hora marcada, estávamos nas cadeiras dos Aflitos, para o começo do jogo. Eu com a minha latinha de cerveja (não havia Lei Seca naquela época) e Luiza com sua água mineral e um saco enorme de pipoca.

- Segura aí, Luluca! Daqui a pouco tem gol do Náutico pra gente comemorar.

E o jogo corria, com o Náutico jogando "pedra em santo". O danado do gol não saia. Nem ameaçava. O primeiro tempo terminava com o placar em branco. Eu, meio cabreiro. Luiza, nem aí, comendo pipocas e curtindo a farra.

No comecinho do segundo tempo, pênalti para o Náutico. Pronto. Era o que iria transformar a programação na festa de iniciação de Luiza.

- Olha aí, meu amor. Vamos torcer que vai sair o gol do Náutico!".

Luiza não ligou, mas tudo bem.

Olho no laaaance! Vai para a bola Sabino, um meia esquerda magro, de quase dois metros de altura, que nos assolou por uns tempos, com o seu futebol inoperante e improdutivo. Expectativa na torcida alvirrubra. Mascarado que Deus o livre e guarde, Sabino toma distância, corre pra bola e... Chuta longe da meta, com a pelota quase indo parar no Country Clube, que fica por detrás das arquibancadas dos Aflitos.

Não disse nada a Luiza, até para não quebrar o clima que, na minha cabeça, ainda estava favorável à sua iniciação. Continuei otimista, avisando que o gol viria a qualquer momento. Ela chegou a me perguntar o que era gol e porque o tal gol nunca vinha.

Mas, não é que o gol veio? No finzinho do jogo. Só que do Íbis. Uma zebra monumental. Botei Luluca no colo, e fomos saindo de fininho. Como ela não perguntou, eu não falei nada sobre o gol, nem sobre a derrota do Náutico para o "pior time do mundo".

O tempo passou, como é da natureza do tempo. Luiza foi crescendo e sua neutralidade futebolística se consolidou. Só muito depois é que ela soube dessa história, em detalhes. Por muitos anos, Luluca não fez ideia do que aconteceu naquela tarde em que saímos de casa para comemorar uma vitória do Náutico e acabamos no Parque da Jaqueira, pois tínhamos programa muito melhor a fazer.

P.S.: A foto da pequena Luiza de camisa alvirrubra, bochechas e cachinhos, existe, mas não ilustra esta crônica a pedido da personagem. Já foi um sofrimento deixar contar a história. Mas, a foto, não. Seria “mico” demais, alega a menina.