segunda-feira, 22 de julho de 2013

VÁ AO TEATRO (MAS, CUIDADO COM O BANHEIRO)


Deslumbrados, mas desconfiados como bons matutos, Zezinho e Cila curtiam os seus primeiros momentos na maior cidade do Brasil. Nunca haviam saído do sertão pernambucano e agora estavam em São Paulo de tanto viaduto, de tanto carro e de tanta gente.

Mal haviam se instalado no hotel e se lembraram do conselho do compadre Nelson: "Em São Paulo, vão ao teatro! Têm uns excelentes!". Conselho de compadre é ouro. Estava decidido: vai-se ao teatro. E já, pois estava cedo e dava tempo.

Seguindo a dica do moço da recepção do hotel, eles foram para um bem pertinho, ali, na Rua Augusta. Não sabiam o nome da peça, mas confiaram na recomendação ("É muito bom e não tem tanta gente..."). Entraram numa casa de espetáculo onde passava uma peça altamente cabeça, algo entre Gerald Thomas e Zé Celso Martinez.

Lá dentro, já mais de meia hora de começado o drama e nem Zezinho nem Cila entendiam nada do que se passava. Os atores discorriam sobre o sentido ambíguo de existir, faziam caras e bocas, levavam a dramaturgia ao extremo da criação performática. Deu vontade de ir ao banheiro em Zezinho.

- Fica aí, mulher! Eu vou lá devagarzinho pra não atrapalhar essa peça que parece ser muito importante. Volto já!

E saiu no escuro, tateando, quase agachado. Entrou num corredor, saiu noutro. Viu uma sala à esquerda, com uma luz fraquinha. Seguiu pra lá, onde subiu uns 4 degraus e parou num patamar. Localizou uma espécie de balde e imaginou: "É aqui!". Começou a se aliviar ali mesmo, tanto que nem ligou para uma luz amarela que se acendeu acima de sua cabeça. Terminou e voltou pro seu lugar, quase agachado, tateando, no escuro.

- Perdi alguma coisa, mulher?

- Nada, Zezinho! Foi tu sair, e ficaram aí falando as mesmas coisas. Depois subiu um homem no palco e deu uma mijada. Ele desceu, todo mundo aplaudiu, e pronto. Logo depois tu chegou.

* Enredo criado (com novos personagens, local e situações) a partir de causo contado por Fernando Menezes, um mestre do ofício.

quarta-feira, 19 de junho de 2013

CEGOS E SURDOS, PODEM ACABAR MUDOS


É impressionante como a maioria dos políticos, independentemente de partidos, não sacou nada do que está acontecendo. O povo está nas ruas, de norte a sul do País. E a classe política, em sua maioria, não percebeu que ela é a razão da maioria das broncas. E que algo pode estar mudando. E que essa mudança pode não ter volta.
Continua tucano a botar culpa em petista que joga a carapuça no 'demo' que faz que não é com ele e comemora o movimento das ruas como uma vitória sua.
Ninguém teve ainda o mínimo de humildade para reconhecer a culpa é de todos eles, de suas políticas sacanas, dos superfaturamentos de suas obras, de sua maneira de ver o povo como gado, de sua incompetência administrativa, de sua esperteza financeira, de sua fome e de sua sede, de sua indigência cultural, de sua arrogância burra e de sua burrice que não encontra limites no campo da lógica.
Nos jornais e na TV, esse pessoal continua a fazer discursos falsos. Elogia os manifestantes que para eles, no fundo, deviam estar quietinho nos seus cantos. Dá vivas sem sinceridade a uma democracia que boa parte queria ver mesmo era no vinagre.
A maioria mostra que não aprendeu nada quando se aproveita do povo lá fora, na rua, e continua a tramar leis infames no escurinho das comissões. Ou quando acha o máximo devolver em migalhas aquilo que lhe é cobrado porque não é dele.
A maioria dos políticos mostra que não aprendeu nada e que não quis aprender. É quase tudo sobejo de um grosso e mal cheiroso caldo cultural. Não está nem aí porque nunca esteve a fim de estar.
Só que tudo isto que, agora sim, está aí é contra a maioria deles. E democraticamente, sem muita distinção de lados ou de partidos.
A impressão é de que pode estar pintando desse desencanto partidário uma rearrumação política à qual todo mundo deve estar muito atento. Inclusive a classe política, que nunca viu motivos maiores para estar.
Onde tudo isso vai dar? Quem sabe?
Quem sobreviver verá.

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

INOCENTES É CAMPEÃÃÃO!! MAS, NO RECIFE...



Eu morava perto, ali no Hipódromo, onde passei muitos anos felizes, com todas as preocupações possíveis naquela época: o horário da pelada na Praça, a mais linda do Recife; roubar peixes beta do tanque da mesma pracinha, levando carreia do guarda; voltar para casa às 5 da tarde, a tempo de assistir ao novo capítulo de “O Caveira” (guardava chicletes mascados na geladeira para “degustar” na hora do seriado... ECA!); esperar a saída do “Clóvis Beviláqua” para ver as meninas de farda azul e branco e de saias bem curtinhas... tudo da mais alta importância, da maior relevância.

Nunca fui a um desfile. Nunca fui à avenida ver aquele bloco. Mas, ouvia lá de casa os acordes da orquestra em dia de ensaio. “Vem, meu bem / Alegria que o frevo contém / É a do teu coração...”. E vibrava quando aquelas senhoras gordas, suadas, repletas de alegria, completavam o refrão “Inocente (sic) é campeããããoo!!”. Refrão que era entoado com orgulho por todos: pelos diretores do bloco, pelos foliões que acompanhavam a festa, pelos músicos, por uma “baiana” a quem chamavam de Maria Aparecida (na época não chamavam “travesti”, mas “transformista”).

Ensaio do Inocentes do Rosarinho era meio que um tabu. Como era o batuque de candomblé do terreiro de Dona Anália, ali na Prudente de Moraes. A gente ia, mas não dizia. A gente gostava de ver, mas fazia que não era com a gente. De público – ingênuos e meio babacas que éramos, todos, sem exceção -, a gente zombava, brincava, "zonava", fazia troça. Ir ao terreiro de umbanda? Nem pensar... Ir a um ensaio do Inocente? Tá doido? Rsrsrs   Mas, a gente não perdia um, a verdade era essa.

O Inocentes era, pois, uma espécie de patrimônio imaterial da minha infância. Ficava ali em Campo Grande, indo pela Rua Jerônimo Vilela, continuação da “minha” Carlos Fernandes, perto da casa de Pita, depois da barraca de Adauto, entrando à esquerda um pouco antes da casa de Beto, aquele menino magrinho, cabeludo, que tocava um violão brabíssimo e que, anos mais tarde, ficaria famoso com o nome de Robertinho do Recife.

Daqueles tempos não restou foi nada, a não ser lembranças e uma música linda, que nunca me saiu da cabeça. Na verdades, um frevo de bloco antológico de Luis de França e Boquinha, muito mais bonito que (não me crucifiquem, puristas!) o frevo do maior rival, o Madeiras do Rosarinho. Lembram? Aquela música do grande e fantástico Capiba, mas chatíssima, que começa berrando: “Madeeeeeeeeira do Rosarinhooooo...” Afe!). O hino do Inocentes – cujo nome correto é “Panorama de Folião” -, esta sim, é uma maravilha que povoa os meus ouvidos e a minha mente desde os tempos idos.

No primeiro dia do ano da graça de 2013, hoje, acordei com esse frevaço na cabeça, sabe-se lá por que. Fui ouvir no youtube. De lá fui ler a respeito do Google. E vi uma numa notícia de jornal que o Bloco Carnavalesco Inocentes do Rosarinho está, agora, em Olinda. Como em Olinda? E o carnaval do Recife, perdeu esta? Será que essa cidade linda e sem memória deixou escapar para a vizinhança uma de suas glórias? O Inocentes é do Rosarinho, é do Recife, recifenses. Repatriação já!

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Um dos mais recentes desfiles do Inocentes do Rosarinho, no carnaval de 2014.



PANORAMA DE FOLIÃO
(Luis de França - Boquinha)


Vem conhecer o que é harmonia
Nesta canção
O "Inocentes" apresenta
Um Lindo panorama de folião
Nossos acordes fazem a mocidade
Ter alegria
E faz inveja a muita gente
Em ver o "Inocentes" como o rei da folia

Vem, meu bem
Alegria que o frevo contém
É a do meu coração
(Inocente' é campeão!)
Vem pegar no meu braço
Vamos cair no passo sem alteração