*Crônica das quartas-feiras - 04
Em meados de
1966 eu, fisicamente, era assim: se estava de frente, pensavam que eu estava de
perfil; se estava de perfil... Ah, pensavam que eu tinha ido embora! Magro que
só um graveto, eu vivia às voltas com algumas graves preocupações, naquele
tempo: se estava hora da pelada no campinho da Praça do Hipódromo; se já tinha
começado a passar National Kid na TV Rádio Clube, Canal 6; se a figurinha de
Bita já estava à venda na banca da esquina, pois eu queria completar o meu
álbum do Náutico Tricampeão. Ter 12 anos naquela época - eu falo de boca cheia
- era muito melhor do que hoje. Pelo menos era mais livre, mais divertido e
menos perigoso.
Em 1966, o
Recife viveu uma de suas grandes enchentes. O Capibaribe subiu 9,20 metros além
do seu nível normal, 175 pessoas morreram e mais de 10 mil ficaram
desabrigadas. Várias localidades foram
inundadas, muita gente perdeu casa e todo o pouco que tinha. Os milhares de
desabrigados lotavam os abrigos que foram improvisados em escolas, quadras
esportivas, centros sociais urbanos e clubes, como a Associação Recreativa e
Cultural da Antárctica, o lendário ARCA, vizinho lá de casa, na Estrada de
Belém, em Campo Grande, onde hoje tem uma Assembleia de Deus. Pertinho do Hipódromo,
onde moravam os meus avós e quase todos os meus amigos de molecagem.
Foi braba aquela
enchente. Eu me lembro de descer a Rua do Rio (olha o nome!) para ver as casas
com água até o telhado. Era um tal de cachorro perdido que dava pena. Como dava
mais pena ainda das pessoas, atarantadas, móveis na cabeça, gavetas com roupas
encharcadas e misturadas a bujões do gás no carro de mão. Um sofrimento
infinito nos olhos e quase nenhuma esperança. A família de um dos meus amigos
de bola perdeu a casa naquela inundação. Covardia! O Capibaribe não poupava nem
os meus amigos...
No ARCA, o
gerente Pedro Soares, o ”Pedro Baiano”, tratava de abrigar a todos que
para lá eram mandados. Generosidade era a marca daquela figura rara, que
gostava de pegar no gol nas peladas de futebol de salão (inventariam isso de
'futsal' muito depois), amava o Santa Cruz e era colecionador de velhos discos
de acetato, sobretudo os de Luiz Gonzaga, Ângela Maria, Glenn Miller e Anísio
Silva. Para quem não viveu a época: esses discos eram aqueles bolachões de
78 rpm, pesados, com uma música de cada lado. Igual ao que me trouxe aos
ouvidos, pela primeira vez, a voz de Elvis Presley, cantando "Love Me
Tender".
Feito o
registro, voltemos a Pedrão. Pois, o cara atendia todo mundo com carinho e
disponibilidade. Arrumava um canto na sala de troféus para uma família com um
recém-nascido. Preparava, ele mesmo, um prato cheio (feijão, farinha, charque e
ovo frito) para um senhor que apareceu puxando uma carroça com o que restava de
sua casa destruída. De lá pra cá e de cá pra lá, essa figuraça coordenava o
trabalho solidário no ARCA, que teve todas as suas atividades esportivas
suspensas, inclusive o campeonato infantil de futebol de salão, onde eu jogava
e até fazia uns golzinhos, aqui e ali.
Naqueles dias,
aquela era a minha rotina: pular o muro da minha casa e seguir para o ARCA, ajudar
o povo. Eu e alguns amigos de pelada. Carregávamos caixotes com comida e roupa,
subíamos nos pés de manga e tirávamos frutas para os meninos abrigados no clube,
voltávamos pra casa e conseguíamos umas moedas que serviam para aliviar a barra
de alguém com mais carência que nós. Era um corre-corre danado. Mas era uma
satisfação maior ainda, ajudar aquelas pessoas, me sentir útil e, no final da
tarde, ainda bater uma bolinha com a rapaziada, time contra time, no quintal do
clube.
Numa dessas idas
e vindas, eu - vestido apenas com um calção cinzento e surrado, magro que
só um tiziu, descalço, cabelo assanhado, todo sujo de areia e
lama -, ia para mais uma das minhas "missões salvadoras" quando fui
seguro pelo braço por um homem alto, vestido de branco e com um chapéu de aba
larga na cabeça. Fiquei sem entender o que ele queria. Depois descobriria que
ele era da prefeitura e estava ali supervisionando as coisas.
- Venha, venha,
menino! Não se preocupe, venha!
Eu fui, até
porque puxado pelo braço. O homem me levou para a cozinha, onde um cheiro bom
de comida já acordava no pessoal a fome que às vezes ficava esquecida por causa
de tanto trabalho. Lá dentro, uns cinco meninos, do mesmo 'tope' que eu. O
homem me levou à cozinheira e esta me deu um copo enorme de leite com nescau e
um pão gigantesco com manteiga turvo.
- Coma que você
deve estar com muita fome, coitado!
A moça da
cozinha, o homem de branco, todos pensavam que eu era um dos desabrigados.
Nunca os culpei pelo engano, pois aparência eu tinha. Além disso, daqueles
meninos que foram levados a lanchar na cozinha do ARCA, eu devia ser, sem
nenhuma dúvida, o mais magro e com cara de fome.
Expliquei que
morava na casa ao lado e que estava ali para ajudar. Não adiantou. A moça
risonha e corpulenta gentilmente empurrou o pão pela minha boca e eu não tive
outro jeito senão saborear aquele inesperado e totalmente bem vindo lanche das
5 da tarde. Que, diga-se de passagem, estava uma delícia.
A pelada com a
rapaziada começou logo em seguida. E entrou pela noite.
PS.: Na semana passada, eu soube que o bom Pedro Baiano morreu atropelado por um caminhão. Que Deus o tenha!
PS.: Na semana passada, eu soube que o bom Pedro Baiano morreu atropelado por um caminhão. Que Deus o tenha!

Nenhum comentário:
Postar um comentário