* Crônica das quartas-feiras - 03
Dividida entre pai alvirrubro e mãe e avô rubro-negros, a
pequena Luiza acabou jogando por terra os meus planos de levar um filho, no
caso uma filha, comigo aos Aflitos para me acompanhar nos jogos do Náutico. Não
teve jeito. No começo, eu ainda consegui por na menina uma roupa bacana do
Timba. Era uma camisa de listras vermelhas e brancas, réplica do "manto
sagrado", com o qual ela chegou a frequentar alguns feriadões em
Itamaracá, na casa do avô Alício, que olhava aquilo tudo com um sorriso amarelo
e uma plena e total desconfiança: "Mas, logo a minha neta!?".
O tempo passou, Luiza cresceu. E assumiu sua neutralidade
clubista com toda dignidade, para meu desespero velado. Mas, dos males o menor.
Se não envergou mais a gloriosa jaqueta alvirrubra, ela pelo menos nunca vestiu
a camisa de nenhum outro clube. Muito menos ameaçou sair por aí de vermelho e
preto. Até porque aí seria um pouco demais para o meu pobre coração alvirrubro.
Mas, não pensem que não tentei ganhá-la para a hostes de
Conselheiro Rosa e Silva. E ela foi ao campo, uma vez, sim. Nunca me animei a
escrever essa história que já contei, algumas vezes, aos amigos de copo e de
cruz. Um deles, o grande Fernando Menezes, rubro-negro, jornalista dos velhos e
bons tempos, muito insistiu para eu que eu fizesse uma crônica. Mas, eu
relutava.
- "E eu vou lá expor a minha filhota, Fernando?".
E não cedi. Até a semana passada. Almoçando com as minhas
duas filhas num desses domingos preguiçosos e absolutamente necessários à
felicidade de um pai, a história veio à tona. Luiza, como sempre, achou um
"mico". Marcela, a mais velha, que é do Náutico embora "não
curta futebol", morreu de rir. Decidi. Vou, enfim, contar a saga.
Luiza tinha quatro anos de idade. Com seus cabelos cacheados
e suas bochechas rechonchudas, ela ficava ainda mais linda no uniforme do
Náutico. Decidi que estava na hora dela conhecer os Aflitos, ir comigo a um
jogo, torcer pelo Náutico, enfim. O danado é que, naquele ano. o time era de
doer. Não inspirava a menor confiança. O ataque era cardíaco. A defesa, um
coração de mãe. Mas, era hora da grande iniciação. Fosse o que Deus quisesse.
Escolhi a dedo o jogo. Dia de sábado, 3 da tarde (era horário de verão), um
emocionante Náutico x Íbis seria perfeito. Jogo sem problemas, que o Timbu
ganharia fácil. Afinal, era o Íbis. Risco zero. Diversão garantida ou uma
improvável volta pra casa de cabeça inchada. Mas, claro, isto não iria ocorrer.
Como moro perto, fomos ao estádio pela manhã, onde comprei meu ingresso.
Visitamos a sede, tomamos sorvete em Vevête, lendário vendedor que até hoje faz
a festa no clube, vendendo seus sorvetes maravilhosos, de várias cores. Depois
levei Luiza para olhar os Aflitos.
- Veja, minha filha, tudo isto é seu, é nosso, é da família
alvirrubra - me ufanei num misto de orgulho e idiotice. À pequenininha, claro,
não interessava nada daquilo, a não ser a delícia gelada que ela sorvia, maravilhada.
Voltamos para casa, almoçamos. Na hora marcada, estávamos
nas cadeiras dos Aflitos, para o começo do jogo. Eu com a minha latinha de
cerveja (não havia Lei Seca naquela época) e Luiza com sua água mineral e um
saco enorme de pipoca.
- Segura aí, Luluca! Daqui a pouco tem gol do Náutico pra
gente comemorar.
E o jogo corria, com o Náutico jogando "pedra em
santo". O danado do gol não saia. Nem ameaçava. O primeiro tempo terminava
com o placar em branco. Eu, meio cabreiro. Luiza, nem aí, comendo pipocas e
curtindo a farra.
No comecinho do segundo tempo, pênalti para o Náutico.
Pronto. Era o que iria transformar a programação na festa de iniciação de
Luiza.
- Olha aí, meu amor. Vamos torcer que vai sair o gol do
Náutico!".
Luiza não ligou, mas tudo bem.
Olho no laaaance! Vai para a bola Sabino, um meia esquerda magro, de quase dois metros de altura, que nos assolou por uns tempos, com o seu futebol inoperante e improdutivo. Expectativa na torcida alvirrubra. Mascarado que Deus o livre e guarde, Sabino toma distância, corre pra bola e... Chuta longe da meta, com a pelota quase indo parar no Country Clube, que fica por detrás das arquibancadas dos Aflitos.
Olho no laaaance! Vai para a bola Sabino, um meia esquerda magro, de quase dois metros de altura, que nos assolou por uns tempos, com o seu futebol inoperante e improdutivo. Expectativa na torcida alvirrubra. Mascarado que Deus o livre e guarde, Sabino toma distância, corre pra bola e... Chuta longe da meta, com a pelota quase indo parar no Country Clube, que fica por detrás das arquibancadas dos Aflitos.
Não disse nada a Luiza, até para não quebrar o clima que, na
minha cabeça, ainda estava favorável à sua iniciação. Continuei otimista,
avisando que o gol viria a qualquer momento. Ela chegou a me perguntar o que
era gol e porque o tal gol nunca vinha.
Mas, não é que o gol veio? No finzinho do jogo. Só que do Íbis. Uma zebra monumental. Botei Luluca no colo, e fomos saindo de fininho. Como ela não perguntou, eu não falei nada sobre o gol, nem sobre a derrota do Náutico para o "pior time do mundo".
Mas, não é que o gol veio? No finzinho do jogo. Só que do Íbis. Uma zebra monumental. Botei Luluca no colo, e fomos saindo de fininho. Como ela não perguntou, eu não falei nada sobre o gol, nem sobre a derrota do Náutico para o "pior time do mundo".
O tempo passou, como é da natureza do tempo.
Luiza foi crescendo e sua neutralidade futebolística se consolidou. Só muito
depois é que ela soube dessa história, em detalhes. Por muitos anos, Luluca não
fez ideia do que aconteceu naquela tarde em que saímos de casa para comemorar
uma vitória do Náutico e acabamos no Parque da Jaqueira, pois tínhamos programa
muito melhor a fazer.

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