Nalvinha não cozinhava lá essas coisas. Além disso, deixava minhas camisas amassadas. E, perto do carnaval, precisava queimar as manhãs seguintes para ir aos ensaios da Gigantes do Samba. Mas era muito gente boa. Tomava conta da casa direitinho, além de ter uma paciência de santa para cuidar das minhas duas cachorras: Kika, a collie de Marcela, e Samanta, uma rotweiller que adotei pra dar carreira em cabra safado que pulava pro quintal de casa, de madrugada. Trabalhou comigo por volta de 1988, no período em que morei no Bongi, numa casa grande, branca, de quintal enorme. Onde vez por outra os coleguinhas de imprensa faziam umas festinhas mal-assombradas.
Nalvinha, além do alto astral, tinha bom humor e um senso das coisas (ou falta de) impagável. Como eu a achava um barato, eu nem a demiti quando ela derramou no ralo da área de serviço uma garrafa inteira de cachaça Havana (mineira, caríssima, que ganhei de final de ano). A singela desculpa foi de que a caninha “estava estragada, toda amarela!”. Também nem a esganei quando, ao receber uns amigos numa sexta-feira á noite, senti falta de dois queijos – um roquefort e um gorgonzola - que havia comprado pela manhã. Na segunda-feira seguinte, eu saberia que a prezada havia jogado fora os queijos que “estavam com cheiro de podre e cheios de uns bichinhos escuros...”.
Feito eu, Nalvinha adorava música. Sabia de cor todos os sucessos de Adilson Ramos. Chegou a conhecer Reginaldo Rossi (“mas, a gente era só amigo, seu Gil!”, frisava). E vez por outra até curtia as coisas que eu ouvia, normalmente nas manhãs de sábado, dia consagrado à cervejinha e à cachacinha, ambas bem geladas e com algum tira-gosto para lavar a alma e o juízo.
Num desses sábados foi dia de ouvir jazz e standards americanos. Frank e Nancy Sinatra rodopiavam na vitrola (discos de vinil, claro!) e mandavam, com maestria ímpar, o clássico “Something Stupid”. Enquanto pai e filha caprichavam no “I know I stand in line / Until you think you have the time / To spend an evening with me”, lá na cozinha Nalvinha cantarolava, enquanto ajeitava o almoço: “Existe um amor / dentro de mim que eu não posso / nem mais controlar...”. De repente, ela adentra a sala com um peito de frango espetado no garfo e pergunta, toda cheia de autoridade:
- Isso é de Fernando Mendes! E ele deixou esse povo gravar?
Mas a melhor de Nalvinha foi no dia em que cheguei em casa com um presente que ganhei do amigo Solano José, grande repórter fotográfico e colega do Jornal do Brasil. Era a reprodução de uma foto clássica feita por Annie Leibovitz, com John Lennon, pelado, abraçado a Yoko Ono. Enquanto eu batia o prego fixando o quadro na parede, Nalvinha me olhava, desconfiada. E já sabendo da minha paixão de sempre pelos Beatles, não resistiu:
- Mas seu Gil, agora eu sei que o senhor gosta mesmo desse tal de João Lemos. Botar um retrato dele nu dentro de casa...
Grande Nalvinha...
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FRANK & NANCY SINATRA - SOMETHING STUPID (Carl Parks)

Um comentário:
morri de rir, muito, muito bom... :-)
Veleiro
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