Jacaré - foto colhida na página do cantor Xico de Assis
Eu saía do Jornal do Commercio, ainda ali na Rua do Imperador, por volta das dez da noite, e o destino era inevitável, normalmente às quintas-feiras. Parava o carro em frente aos armazéns de açúcar próximos ao Marco Zero, atravessava a rua, cruzava a calçada. Abria a porta e a fumaça de cigarro explodia na minha cara, junto com o barulho de conversa e de música. Era um tempo bom, sem lei seca e outras normas que unem o útil ao desagradável. Eu estava no Scotch Bar.
Nunca fui de grandes pileques. Mas, o meu uisquinho das quintas era manso e sagrado. Chegava lá e Martinha já sabia o que eu queria. A dose de "johnny red" sobre três pedrinhas de gelo chegava sem eu nem pedir. E antes de eu dizer "Boa noite!", ela já gritava para a moça que trabalha na cozinha estreita: "Um pão francês prensado na chapa com queijo do reino!". Pronto, naquele comecinho dos anos 1990, eu estava quase no céu.
O Recife Antigo ainda guardava boêmia. Era outra coisa. Vivia cheio de gente. Havia vida inteligente e ativa no velho bairro. Praticamente toda a semana. Muitos bares e restaurantes, gente na rua até tarde da noite. Festa que acabaria alguns anos depois quando esqueceram de cuidar do lugar. Uma pena.
E naquele nicho, o Scotch Bar era reduto soberano. Tinha, a 10 metros, o Bar do 28, com freguesia antiga e cativa. Mas eu nunca ia por lá. O Scotch Bar era tudo. Agradava-me o clima meio "pub" do lugar. Aprazia-me, particularmente, o seu bom gosto musical. A música ambiente era no volume certo e não se tocava porcaria. Na primeira dose, eu parava para ouvir Frank Sinatra e Billie Holliday. Na segunda, eu pedia para bisar Cartola e Nelson Cavaquinho. Na terceira eu já terçava, baixinho, duetos com Núbia Lafayette e Orlando Dias.
"Tu és a criatura mais linda / que os meus olhos já viram...". Martinha jurava que a canção era pra ela. Pra que desmentir?
Aquele cenário de uma simplicidade majestosa ficava ainda melhor quando adentrava o recinto uma figura tímida, magrinha, com os olhos vermelhos (talvez também de sono), com um cavaquinho debaixo do braço. Chegava sempre acompanhado de um violonista e de outro músico com um pandeiro na mão. Injustiça da gota, mas não consigo lembrar o nome desses outros artistas da noite. Mas lembro, e muito, de Jacaré, o "mago" (em todos os sentidos) daquele cavaquinho.
A sua chegada era uma festa para os ouvidos e para o coração de quem gosta de música. Mas, música daquelas que, sem saudosismo, não se acha mais aí pelos bares e pelas esquinas. Humilde e extremamente talentoso, Jacaré saía desfiando Garotos, Dilermandos, Eriveltos, Noéis e Adelinos. Vez em quando, ele caprichava em Pixinguinhas, Nazarés e Chiquinhas Gonzagas. Tudo com a mesma graça, com a mesma calma. Sempre com a mesma generosidade.
Mas, no repertório mais popular era onde ele parecia se sentir mais à vontade. Solava ou acompanhava um ou outro boêmio que pedia, e ganhava, uma canja. Aguentava os desafinos com paciência de Jó. Às vezes, tínhamos a sorte de aparecer alguém cantando bem. E então a festa era mais bonita.
"Sei que esse argumento é muito pobre / Mas sabendo quanto és nobre / Sei que podes perdoar...", cantava um "Nelson Gonçalves" bebum, gordo e bigodudo, relembrando da amada que ele nem sabia por onde andava.
E a noite seguia mansa feito a brisa que vez por outra balançava (eu juro que vi!!) as barbas do Barão de Rio Branco que, feito de história e pedra, abençoava a Avenida Alfredo Lisboa, a Avenida Marquês de Olinda, a Rua do Bom Jesus, Praça do Arsenal e adjacências. A terra de Jacaré.
Quem teve oportunidade de ver e ouvir esse Mestre das cordas, com certeza não esquece mais. Para quem não teve esse privilégio, acima vai uma palinha do som de Jacaré.
CHORO FREVADO
Em 1998, Jacaré gravou o estupendo "Choro Frevado", que saiu já em LP e CD pela Funarte/Atração Fonográfica, na Série Acervo de Música Brasileira, Vol.35. É da capa desse disco que tirei o texto a seguir:
Jacaré (Antônio da Silva Torres), compositor e instrumentista (Recife PE 12/6/1929—01/04/2005), fez os primeiros estudos com seu pai, Josias, que era barbeiro, e, aos nove anos, já começava a solar no cavaquinho as primeiras composições. Trabalhando como ajudante de alfaiate, recebeu o apelido de Jacaré, dado por Arlindo Melo, também compositor de marchas carnavalescas e alfaiate.
Em 1957 passou a integrar o regional da Rádio Clube de Pernambuco, ao lado de músicos de renome na época: Felinho, China, Otacílio Feitosa, Nelson Miranda, Martins da Sanfona, Martins do Pandeiro e outros. Atuou no Rádio Clube até 1964, quando, com o fim dos programas de auditório, foi ganhar a vida tocando na noite, nos bares Canavial Drinks (dirigido por Heloísa Helena), Hotel São Domingos, Casa-Grande & Senzala e, já em 1982, no Bar do Bispo.
Participou, em outubro de 1984, do projeto Recife e Seus Artistas Populares, promovido pela Fundação de Cultura Cidade do Recife, ocasião em que conheceu Hermínio Bello de Carvalho e Maurício Carrilho, que o convidaram a integrar o Projeto Pixinguinha daquele ano.
No ano seguinte, 1985, gravou seu primeiro e único disco: Jacaré — Choro Frevado, sob o patrocínio da Prefeitura da Cidade do Recife. O disco só contém composições de sua autoria: Galho Seco, Saudade de Limoeiro, Goianinha, Jacaré de Saiote, Silvana, Vai e Vem, Jacaré Voador, Jacarezinho, Chorinho Caiçara, Pro Hermínio, Sem Rancor, Jaciara, Saudoso Cavaquinho.

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