quinta-feira, 15 de novembro de 2012

AS JANELAS AZUIS DE TARCISO VILLAÇA



Uma figura inesquecível. Baixinho, espirituoso até a última gota da cerveja que lhe fazia bem e lhe deixava ainda mais espevitado e gente boa. Boêmio, gostava de ver o sol aparecer na barra do dia, nos céus do Hipódromo – ali pertinho da Encruzilhada – cantando, ouvindo a gente tocar violão e derrubando uma a uma as brahmas que mandava buscar no Bar da Maga. Eu e Fernando Franco, meu amigo-irmão e genro da figura em tela, nos divertíamos com as histórias, com as presepadas e com a graça sem fim de Tarciso Villaça. Era a cereja do bolo de nossas cantorias. A parte mais animada e brilhante daquelas noitadas.

Com ele, inseparável, um caderno sem pautas, lotado de letras de músicas, todas escritas à mão, com capricho. Ali tinha de tudo: “Alguém me disse” que imortalizou Anysio Silva, “Nick Bar” que ele cantava empostando a voz a la Dick Farney, até músicas da Jovem Guarda que a gente cantava já pra lá de Bagdá saudando o final da esbórnia.

Mas, uma música, gravada por Maria Creuza, Tarciso vivia pedindo pra gente tocar e nada de a gente conhecer. Não tinha no caderno, muito menos na minha memória ou na de Fernando.

-Vai, rapaz, lembra aí... é assim: ‘Janelas azuis, num segundo o tempo voltou... ela é outra, eu sou outro...’”.

E fazendo um gesto com o indicador pra cima, arrematava:

- E o final é assim: ‘um táxi, por favor!’”. E cadê a gente saber da tal canção? Não tinha jeito.

Essa busca incessante pelas “janelas azuis” aconteceu enquanto houve farra, durou enquanto houve Tarciso. Um dia, sem combinar direito com a gente, ele foi se embora. A gente ficou sem as brahmas, sem as músicas, sem o violão, sem o sol choramingando pra nascer no céu do Hipódromo. A gente ficou sem Tarciso e sem as janelas azuis.

O tempo passou e essas histórias ficaram, lembradas sempre que a gente pega um violão e toca e canta e fala sobre aquele tempo e sobre Tarciso. Lembradas junto com Fernando. Junto com Cristina, filha dele, mulher de Fernando e minha amiga. Com Almerinda, mulher dele e protagonista de outras histórias, como aquela quando fez a figura dormir no sofá depois de uma birita meio mal-assombrada

- Ela me expulsou do leito conjugal -, disse o nosso herói com os olhos vermelhos e, claro, um copo de cerveja bem geladinha na mão.

Ficou a lembrança, e uma lembrança querida demais.

Aí vem a internet para lembrar que a vida passa, mas as pistas ficam por aí, no ciberespaço. Hoje, eu estava trabalhando e navegando quando parei na página do youtube. E naquela barrinha que traz umas sugestões de vídeos, um delas quase me fez cair da cadeira. Estava lá: “Maria Creuza – Janelas Azuis”. Não acreditei. Aquilo era recado da Tarciso. Que está em algum lugar lá por cima, feliz sob alguma janela azul, reencontrando alguns amigos (será que tem serenata por lá?) e tornando o céu bem mais animado.

Não deu outra. Foi só abrir uma cerveja, botar a música (no arquivo de vídeo) para tocar e tornar mais alegre esse 15 de novembro cansado de guerra. E no final da canção, levantar o copo e cantar (em coro com ele, com certeza):

- Um táxi, por favor!

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Abaixo, a “prova do crime”: “Janelas Azuis”, de Rildo Hora e Sérgio Cabral, na voz linda de Maria Creuza. Tim-tim, Tarciso Villaça!



MARIA CREUZA
JANELAS AZUIS
(Rildo Hora - Sérgio Cabral)

Quinze anos depois
E a rua em nada mudou
Janelas azuis
Num segundo o tempo voltou
Um olhar, quinze anos]
O que é que faço aqui?
Ela é outra, eu sou outro
Meus Deus
É melhor ir me embora
Um táxi, por favor
Foi engano senhora
Adeus

Janelas azuis
Num segundo o tempo voltou
Um olhar, quinze anos
O que é que faço aqui?
Ela é outra, eu sou outra
Meus Deus
É melhor ir me embora
Um táxi, por favor
Foi engano, senhora
Adeus

Um comentário:

Patty Vilaça disse...

Obrigada amigo Gil, pela viagem no tempo. Estou emocionada!