Eu morava perto, ali no Hipódromo, onde passei muitos anos
felizes, com todas as preocupações possíveis naquela época: o horário da pelada
na Praça, a mais linda do Recife; roubar peixes beta do tanque da mesma
pracinha, levando carreia do guarda; voltar para casa às 5 da tarde, a tempo de
assistir ao novo capítulo de “O Caveira” (guardava chicletes mascados na
geladeira para
“degustar” na hora do seriado... ECA!); esperar a saída do “Clóvis Beviláqua”
para ver as meninas de farda azul e branco e de saias bem curtinhas... tudo da mais alta importância, da
maior relevância.
Nunca fui a um desfile. Nunca fui à
avenida ver aquele bloco. Mas, ouvia lá de casa os acordes da orquestra em dia
de ensaio. “Vem, meu bem / Alegria que o frevo contém / É a do teu coração...”.
E vibrava quando aquelas senhoras gordas, suadas, repletas de alegria,
completavam o refrão “Inocente (sic) é campeããããoo!!”. Refrão que era entoado
com orgulho por todos: pelos diretores do bloco, pelos foliões que acompanhavam
a festa, pelos músicos, por uma “baiana” a quem chamavam de Maria Aparecida (na
época não chamavam “travesti”, mas “transformista”).
Ensaio do Inocentes do Rosarinho era
meio que um tabu. Como era o batuque de candomblé do terreiro de Dona Anália, ali na Prudente de Moraes. A
gente ia, mas não dizia. A gente gostava de ver, mas fazia que não era com a
gente. De público – ingênuos e meio babacas que éramos, todos, sem exceção -, a
gente zombava, brincava, "zonava", fazia troça. Ir ao terreiro de umbanda? Nem pensar...
Ir a um ensaio do Inocente? Tá doido? Rsrsrs Mas, a gente não perdia um, a verdade era
essa.
O Inocentes era, pois, uma espécie de patrimônio
imaterial da minha infância. Ficava ali em Campo Grande, indo pela Rua Jerônimo
Vilela, continuação da “minha” Carlos Fernandes, perto da casa de Pita, depois
da barraca de Adauto, entrando à esquerda um pouco antes da casa de Beto, aquele
menino magrinho, cabeludo, que tocava um violão brabíssimo e que, anos mais tarde,
ficaria famoso com o nome de Robertinho do Recife.
Daqueles tempos não restou foi nada, a
não ser lembranças e uma música linda, que nunca me saiu da cabeça. Na verdades,
um frevo de bloco antológico de Luis de França e Boquinha, muito mais bonito que
(não me crucifiquem, puristas!) o frevo do maior rival, o Madeiras do Rosarinho. Lembram? Aquela música do grande e fantástico Capiba, mas chatíssima, que começa
berrando: “Madeeeeeeeeira do Rosarinhooooo...” Afe!). O hino do Inocentes –
cujo nome correto é “Panorama de Folião” -, esta sim, é uma maravilha que povoa
os meus ouvidos e a minha mente desde os tempos idos.
No primeiro dia do ano da graça de
2013, hoje, acordei com esse frevaço na cabeça, sabe-se lá por que. Fui ouvir
no youtube. De lá fui ler a respeito do Google. E vi uma numa notícia de jornal
que o Bloco Carnavalesco Inocentes do Rosarinho está, agora, em Olinda.
Como em Olinda? E o carnaval do Recife, perdeu esta? Será que essa cidade linda
e sem memória deixou escapar para a vizinhança uma de suas glórias? O Inocentes
é do Rosarinho, é do Recife, recifenses. Repatriação já!
------------
Um dos mais recentes desfiles do Inocentes do Rosarinho, no carnaval de 2014.
PANORAMA DE FOLIÃO
(Luis de França - Boquinha)
Vem conhecer o que é harmonia
Nesta canção
O "Inocentes" apresenta
Um Lindo panorama de folião
Nossos acordes fazem a mocidade
Ter alegria
E faz inveja a muita gente
Em ver o "Inocentes" como o rei da folia
Vem, meu bem
Alegria que o frevo contém
É a do meu coração
(Inocente' é campeão!)
Vem pegar no meu braço
Vamos cair no passo sem alteração

Nenhum comentário:
Postar um comentário