Deslumbrados, mas desconfiados como bons matutos, Zezinho e Cila curtiam os seus primeiros momentos na maior cidade do Brasil. Nunca haviam saído do sertão pernambucano e agora estavam em São Paulo de tanto viaduto, de tanto carro e de tanta gente.
Seguindo a dica do moço da recepção do hotel, eles foram para um bem pertinho, ali, na Rua Augusta. Não sabiam o nome da peça, mas confiaram na recomendação ("É muito bom e não tem tanta gente..."). Entraram numa casa de espetáculo onde passava uma peça altamente cabeça, algo entre Gerald Thomas e Zé Celso Martinez.
Lá dentro, já mais de meia hora de começado o drama e nem Zezinho nem Cila entendiam nada do que se passava. Os atores discorriam sobre o sentido ambíguo de existir, faziam caras e bocas, levavam a dramaturgia ao extremo da criação performática. Deu vontade de ir ao banheiro em Zezinho.
- Fica aí, mulher! Eu vou lá devagarzinho pra não atrapalhar essa peça que parece ser muito importante. Volto já!
E saiu no escuro, tateando, quase agachado. Entrou num corredor, saiu noutro. Viu uma sala à esquerda, com uma luz fraquinha. Seguiu pra lá, onde subiu uns 4 degraus e parou num patamar. Localizou uma espécie de balde e imaginou: "É aqui!". Começou a se aliviar ali mesmo, tanto que nem ligou para uma luz amarela que se acendeu acima de sua cabeça. Terminou e voltou pro seu lugar, quase agachado, tateando, no escuro.
- Perdi alguma coisa, mulher?
- Nada, Zezinho! Foi tu sair, e ficaram aí falando as mesmas coisas. Depois subiu um homem no palco e deu uma mijada. Ele desceu, todo mundo aplaudiu, e pronto. Logo depois tu chegou.
* Enredo criado (com novos personagens, local e situações) a partir de causo contado por Fernando Menezes, um mestre do ofício.

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