Mais um achado, daqueles que pulam pra cima da gente, direto dos youtubes da vida. Mas, um achado muito particular, familiar, que a maioria não vai entender, ou lembrar.
Na própria Família Sobral, um tema para poucos, por razões de ordem etária. É uma pena não termos mais por aqui Mamãe, Tia Lucinha, Tia Gracinha... Tia Carmita que se foi tão cedo e nunca imaginaria o que seria, um dia, a internet e seus... achados. Elas todas lembrariam dessa velha canção que encontrei hoje de tarde. Tio Zé, Tio Totonho e Tio Paulo lembrarão, claro! Dos netos de Seu Zezu, talvez os mais velhos. Uma antiga canção que Madrinha Cila vivia a cantar.
Madrinha Cila (Otacília Gomes da Carvalho) foi uma das mais querida figuras da família, embora não fosse parente direta ou próxima da maioria de nós. Era prima em terceiro grau de Vovó (Penha Sobral) e era a pessoa mais antiga do clã, em nosso convívio. Morava com meus avós. Morreu aos 92 anos, em 28/02/1988. Prestativa por natureza, de um humor e uma disponibilidade raros, fazia dengo a todo mundo e por todos era muito dengada. Todos a amavam muito, o que era uma retribuição do imenso amor que dela todos da família sempre receberam.
Madrinha Cila adorava cantar. E tinha os seus "clássicos" particulares.
- Aquela que Madrinha Cila cantava... - ainda é a maneira com que nós (netos e sobrinhos) nos referimos a canções que aprendemos com ela. Como a do "Meu lindo jangadeiro", cujo título original é "Memória triste de uma praieira" (Stefana de Macedo). Ou "Ave Maria" (Erothides de Campos) com o seu começo inesquecível: "Cai a tarde tristonha e serena / Em macio e suave langor...". Esta também, pelo menos para mim, uma canção "da minha Vovó".
Esta canção que achei hoje fala de um toureiro e da sua paixão pela guapa Manolita. Uma história de amor passada na cidade de Sevilha, Espanha, e que vira tragédia, no final. Ouvi-la (no link, no final deste texto), para quem teve a ventura de conviver com Madrinha Cila, é mesmo que ouvi-la cantar. Cada verso da longa letra, a estrofe do refrão, as marcantes palavras finais. Para mim, com as já citadas, ela fechava a trinca das "Canções de Madrinha Cila" que mais me tocavam.
Madrinha Cila com sua doçura, sua espirituosidade e sua enorme generosidade, "visitou-me" esta tarde. E me trouxe uma canção com a qual tantas vezes tornou os meus dias inesquecíveis. Como inesquecível ela sempre será na vida de todos nós. Por uns poucos minutos, eu viagei para quando tinha somente 9 ou 10 anos. Acho que voltei melhor.
A CANÇÃO
Segundo o músico e pesquisador Ayrton Mugnaini Jr., "Alza, Manolita" foi composta em 1910 pelo francês Leo Daniderff e foi gravada pelas também francesas Marcelly e Henriette Leblond. No Brasil, em1918, recebeu versão do cantor e palhaço de circo Eduardo das Neves. A versão só seria gravada 10 anos depois, por Arthur Castro. Mas, nos anos 1940 tornou-se sucesso em vozes como Carlos Galhardo, Vicente Celestino, Osny Silva, Luiz Gonzaga(num registro perdido pelo tempo) e Francisco Alves, o Chico Viola. Esta última, no link abaixo.
ALZA, MANOLITA
(Leo Daniderff / versão: Eduardo das Neves)
Era uma tarde em Sevilha,
Quando uma dama formosa eu vi,
Era a mais graciosa filha daquela terra, que estava ali,
Ao lado um garboso rapaz,
Que belo tipo de toureador,
Dizia-lhe, em chama voraz,
Coisas bonitas, frases de amor.
E a bela escutava com todo o prazer,
As frases do guapo rapaz a dizer.
Alza, alza, Manolita !
Meu coração teu será
Meu amor, minha querida,
Será teu por toda a vida,
Enquanto vida eu tiver,
Não serei de outra mulher,
Vá à cartomante e verás,
Que as cartas não mentem jamais !
No outro dia a formosa, quis da verdade bem se inteirar,
Como por ser muito ardilosa, a cartomante foi consultar,
Eu quero saber, com certeza, se Pedro, meu toureador,
Me ama com toda firmeza ou se ele jura um falso amor !
As cartas depondo ali sobre a mesa,
A velha responde com toda firmeza.
Alza, alza, Manolita
O Valete a revelar,
Teu Pedro, minha querida,
Será teu por toda vida,
Enquanto vida ele tiver,
Não será de outra mulher,
Creia no que digo e verás,
Que as cartas não mentem jamais.
Um dia vem um chamado e o toureador foi a Madri,
O coração abalado de Manolita ficava ali,
Cacilda, rival nos amores, de Manolita, quer se vingar,
E pra causar dissabores, mil falsidades lhe vem contar.
Teu Pedro, não morre de amores por ti,
Chamado por outra, vai ele a Madri.
Alza, não posso acreditar,
Que Pedro vá me enganar,
Meu Pedro, minha querida,
Jurou ser meu toda a vida,
Enquanto vida ele tiver,
Não será de outra mulher,
Vá à cartomante e verás,
Que as cartas não mentem jamais.
Dizem os jornais de Madri, uma noticia de entristecer,
Pedro, na praça dalí, fora ferido, estava a morrer,
Manolita, corre chorosa, a cartomante foi consultar,
E diz-lhe a tremer, suspirosa: Vê se meu Pedro pode escapar,
A velha tremendo, seu peito lhe estala,
As cartas revendo, tristonha lhe fala:
Alza, alza, Manolita, tudo na vida passará
Teu Pedro, minha querida, foi teu somente na vida,
Eis o Valete a nos dizer: teu Pedro acaba de morrer,
Reza por ele na paz,
Que as cartas não mentem jamais!

Um comentário:
Lindo texto Gil. Lembro-me de várias estórias que madrinha Cila contava: "... quer café Ramiro?..." ; " ... você está tão triste, comentava o rapaz com seu par na dança e a moiçola respondia : que nada to até melancólica.."
Bjs, Fátima Cabral
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