quarta-feira, 30 de maio de 2012

CONHECI LOLITA. DEVO CONHECER O RECIFE...

Crônica das quartas-feiras - 02


Quem não conheceu Lolita não conheceu o Recife das décadas de 1960 e 70. E eu acabei conhecendo Lolita. Posso jactar-me (ops!), portanto, de conhecer o Recife. Só que muitos dos lugares e logradouros da capital pernambucana velha de guerra, eu, de fato, nunca vi. Acreditam que eu nunca fui ao Totó, nem ao Córrego do Abacaxi, ou Zumbi do Pacheco? Pode parecer incrível, mas, aos 56 anos de vida, tem bairros recifenses onde ainda não botei o pé. São poucos, mas existem. Agora, Lolita eu conheci.

Foi lá pelo ano de 1975, quando eu comecei a cursar o “científico” no saudoso União Colégio e Curso, ali na Rua Fernandes Vieira, pertinho da Celpe e do Sindicato dos Jornalistas. A simpática rua que sai do Parque Amorim e termina na Soledade ainda era completamente arborizada, com enormes pés de oiti. Eram tempos mais tranquilos, mesmo levando-se em conta que vivíamos em um dos períodos mais barra-pesada da ditadura militar. Nas escolas, nas ruas, campos, construções, porém, a coisa era mais maneira. O pau cantava nos quartéis, mas a gente ainda podia andar a pé, de madrugada, sem precisar ser, necessariamente, roubado ou morto.

O Recífilis ainda tinha os seus encantos, os seus bordéis do Recife Antigo, as suas “mulheres de tantas vidas, das noites tão bem vividas e das tardes mal dormidas”, como cantou o poeta paulista Elder Braga a respeito de mulheres de outra terra. A zona era uma festa absolutamente democrática, aberta a ricos, pobres e remediados. E possuía uma fauna riquíssima, com figuras marcantes, entre as quais pululavam bêbados oradores, decadentes doutores, boêmios cantores, respeitáveis senhores fugindo de suas respeitáveis rotinas, belas meninas que não beijavam na boca com medo de se apaixonar, travestis que até enganavam os incautos, bichas brabas feito um siri na lata. Nesse último grupo, Lolita reinava solene e impávida.

- Quem não conhece Lolita não conhece o Recife – era o bordão que marcava a presença de Ivo Alves da Silva no pedaço. Pernambucano de Nazaré da Mata, era um baixinho invocado, alegre e completamente sem medo de ser feliz ou de levar porrada. Rezava a lenda que para prender Lolita era preciso uma guarnição com pelos menos oito soldados da PM; o pau cantava e ele só ela levado na viatura desmaiado de tanto apanhar, bater e resistir.

Lolita sempre aparecia na zona do Recife, embora frequentasse com mais desenvoltura a zona do Pina, onde morava ou, como gostava de dizer  “se escondia”. Mas, a farra acontecia em qualquer lugar aonde a figura chegasse. Podia ser um comício vetusto da ARENA (Aliança Renovadora Nacional, um dos dois partidos existentes no período militar – o outro era o Movimento Democrático Brasileiro, o MDB)-, podia ser numa greve de estudantes contra a repressão nas universidades, não importava. Quando menos esperava, chegava “Lola”, dançando, cantando, greiando, dando flash.

Lembro-me de um desses momentos memoráveis, na frente da Escola de Engenharia da Universidade Federal de Pernambuco, que ficava ali na Rua Hospício, colado ao recém-inaugurado (hoje fechado) Cinema Veneza.

- Será que eu sou feeeeeeia? - Trinava Lolita o refrão de um mega sucesso de Ângela Maria.
- Não é, não senhooooor! – Respondiam os estudantes.
- Então eu sou liiiiiinda?
- Você é um amooooor!

E a farra começava, com a estudantada enchendo os copos (deles e de Lolita) e dando por encerrados os trabalhos de aniquilamento radical da ditadura militar. A cantoria “O povo unido jamais será vencido” dava lugar a clássicos como “Esta Noite Eu Queria que o Mundo Acabasse” ou “Cinderela” (“Menina-moça, coração a palpitar...”), interpretados com langor e sofreguidão pela maior estrela da noite.

Lolita foi “única”, embora existissem algumas outras figuras que sempre procuraram lhe seguir a trilha. Célebre lá no Amaro Branco, em Olinda, “Tonha Preta” mesmo era um deles e tinha todas as características de Lolita, “na brabeza e na safadeza”. Com a diferença que era um negrão de 2 metros de altura. Mas, nenhum deles logrou a fama e o prestígio de “Lola”.

E apesar de poder dizer que conheço o Recife porque conheci Lolita, isto só veio a acontecer mesmo foi em Olinda. Numa farra noturna no Alto da Sé, onde eu e alguns amigos e amigas fazíamos um som, movido a violão, a água que passarinho não bebe e, para alguns, a cigarro que “passarinho não fuma”. Estava na roda, com a gente, o saudoso Pai Edu, um dos mais queridos babalorixás pernambucanos. De repente, o pai-de-santo olha para o mirante da Sé e grita: “Lolita!”. E a nossa personagem chega, se apresenta como de praxe e se incorpora à cantoria para o gáudio geral. Naquela noite, a danada cantou de tudo: clássicos de Waldick Soriano, Nelson Gonçalves, Núbia Lafaytette, Lindomar Castilho, além de pérolas do repertório da sua querida e inevitável  Ângela Maria. E, claro, encerrou apoteoticamente com “Babaloooooo – Aiêêê”, que era uma das suas marcas registradas.

Até que um amigo nosso (não lembro quem), resolveu saber o que a figura estava fazendo ali no Alto da Sé, e não nas ruas do Recife. Lolita contou que estava morando uns dias na casa de uma amiga (sabe-se lá se era homem ou mulher) e que estava adorando viver na Cidade Alta. Acendeu um “continental sem filtro”, tomou um gole cerveja e soltou:

- Ah, meu filho! Agora meu reinado é igual ao de Dom Helder Câmara: Olinda e Recife!

Gargalhadas gerais. Desce o pano.

P.S: Em julho de 1975, o hoje extinto JORNAL DA CIDADE publicava uma ótima entrevista com Lolita, feita pelos jornalistas Ivan Maurício, Beth Salgueiro, Vera Ferraz, Geraldo Sobreira e Jones Melo. Tinha graça não publicar o link, não é?   http://www.enciclopedianordeste.com.br/nova531.php

P.S.2: Por falar nisso, onde andará Lolita?


Músicas citadas nesta crônica:

GAROTA SOLITÁRIA/DESTINO DA LUA (Adelino Moreira) - com Angela Maria


AS MENINAS (Tavito - Elder Braga) - com Tavito



Nenhum comentário: