Crônica das quartas-feiras - 02
Quem não conheceu Lolita não conheceu o Recife das décadas
de 1960 e 70. E eu acabei conhecendo Lolita. Posso jactar-me (ops!), portanto, de conhecer o Recife. Só
que muitos dos lugares e logradouros da capital pernambucana velha de guerra,
eu, de fato, nunca vi. Acreditam que eu nunca fui ao Totó, nem ao Córrego do
Abacaxi, ou Zumbi do Pacheco? Pode parecer incrível, mas, aos 56 anos de vida,
tem bairros recifenses onde ainda não botei o pé. São poucos, mas existem. Agora,
Lolita eu conheci.
Foi lá pelo ano de 1975, quando eu comecei a cursar o
“científico” no saudoso União Colégio e Curso, ali na Rua Fernandes Vieira,
pertinho da Celpe e do Sindicato dos Jornalistas. A simpática rua que sai do
Parque Amorim e termina na Soledade ainda era completamente arborizada, com
enormes pés de oiti. Eram tempos mais tranquilos, mesmo levando-se em conta que
vivíamos em um dos períodos mais barra-pesada da ditadura militar. Nas escolas, nas ruas, campos, construções,
porém, a coisa era mais maneira. O pau cantava nos quartéis, mas a gente ainda
podia andar a pé, de madrugada, sem precisar ser, necessariamente, roubado ou
morto.
O Recífilis ainda
tinha os seus encantos, os seus bordéis do Recife Antigo, as suas “mulheres de
tantas vidas, das noites tão bem vividas e das tardes mal dormidas”, como cantou
o poeta paulista Elder Braga a respeito de mulheres de outra terra. A zona era uma festa absolutamente
democrática, aberta a ricos, pobres e remediados. E possuía uma fauna riquíssima, com figuras marcantes,
entre as quais pululavam bêbados oradores, decadentes doutores, boêmios
cantores, respeitáveis senhores fugindo de suas respeitáveis rotinas, belas
meninas que não beijavam na boca com medo de se apaixonar, travestis que até
enganavam os incautos, bichas brabas
feito um siri na lata. Nesse último grupo, Lolita reinava solene e impávida.
- Quem não conhece Lolita não conhece o Recife – era o
bordão que marcava a presença de Ivo Alves da Silva no pedaço. Pernambucano de
Nazaré da Mata, era um baixinho invocado, alegre e completamente sem medo de
ser feliz ou de levar porrada. Rezava a lenda que para prender Lolita era
preciso uma guarnição com pelos menos oito soldados da PM; o pau cantava e ele
só ela levado na viatura desmaiado de tanto apanhar, bater e resistir.
Lolita sempre aparecia na zona do Recife, embora frequentasse
com mais desenvoltura a zona do Pina, onde morava ou, como gostava de
dizer “se escondia”. Mas, a farra
acontecia em qualquer lugar aonde a figura chegasse. Podia ser um comício
vetusto da ARENA (Aliança Renovadora Nacional, um dos dois partidos existentes
no período militar – o outro era o Movimento Democrático Brasileiro, o MDB)-,
podia ser numa greve de estudantes contra a repressão nas universidades, não
importava. Quando menos esperava, chegava “Lola”, dançando, cantando, greiando,
dando flash.
Lembro-me de um desses momentos memoráveis, na frente da
Escola de Engenharia da Universidade Federal de Pernambuco, que ficava ali na
Rua Hospício, colado ao recém-inaugurado (hoje fechado) Cinema Veneza.
- Será que eu sou feeeeeeia? - Trinava Lolita o refrão de um
mega sucesso de Ângela Maria.
- Não é, não senhooooor! – Respondiam os estudantes.
- Então eu sou liiiiiinda?
- Você é um amooooor!
E a farra começava, com a estudantada enchendo os copos (deles
e de Lolita) e dando por encerrados os trabalhos de aniquilamento radical da
ditadura militar. A cantoria “O povo unido jamais será vencido” dava lugar a
clássicos como “Esta Noite Eu Queria que o Mundo Acabasse” ou “Cinderela” (“Menina-moça,
coração a palpitar...”), interpretados com langor e sofreguidão pela maior
estrela da noite.
Lolita foi “única”, embora existissem algumas outras figuras
que sempre procuraram lhe seguir a trilha. Célebre lá no Amaro Branco, em
Olinda, “Tonha Preta” mesmo era um deles e tinha todas as características de
Lolita, “na brabeza e na safadeza”. Com a diferença que era um negrão de 2
metros de altura. Mas, nenhum deles logrou a fama e o prestígio de “Lola”.
E apesar de poder dizer que conheço o Recife porque conheci
Lolita, isto só veio a acontecer mesmo foi em Olinda. Numa farra noturna no
Alto da Sé, onde eu e alguns amigos e amigas fazíamos um som, movido a violão,
a água que passarinho não bebe e, para alguns, a cigarro que “passarinho não
fuma”. Estava na roda, com a gente, o saudoso Pai Edu, um dos mais queridos
babalorixás pernambucanos. De repente, o pai-de-santo olha para o mirante da Sé
e grita: “Lolita!”. E a nossa personagem chega, se apresenta como de praxe e se
incorpora à cantoria para o gáudio geral. Naquela noite, a danada cantou de
tudo: clássicos de Waldick Soriano, Nelson Gonçalves, Núbia Lafaytette, Lindomar
Castilho, além de pérolas do repertório
da sua querida e inevitável Ângela
Maria. E, claro, encerrou apoteoticamente com “Babaloooooo – Aiêêê”, que era uma das suas marcas registradas.
Até que um amigo nosso (não lembro quem), resolveu saber o
que a figura estava fazendo ali no Alto da Sé, e não nas ruas do Recife. Lolita
contou que estava morando uns dias na casa de uma amiga (sabe-se lá se era
homem ou mulher) e que estava adorando viver na Cidade Alta. Acendeu um “continental
sem filtro”, tomou um gole cerveja e soltou:
- Ah, meu filho! Agora meu reinado é igual ao de Dom Helder
Câmara: Olinda e Recife!
Gargalhadas gerais. Desce o pano.
P.S: Em julho de 1975,
o hoje extinto JORNAL DA CIDADE publicava uma ótima entrevista com Lolita,
feita pelos jornalistas Ivan Maurício, Beth Salgueiro, Vera Ferraz, Geraldo
Sobreira e Jones Melo. Tinha graça não publicar o link, não é? http://www.enciclopedianordeste.com.br/nova531.php
P.S.2: Por falar
nisso, onde andará Lolita?
Músicas citadas nesta crônica:
GAROTA SOLITÁRIA/DESTINO DA LUA (Adelino Moreira) - com Angela Maria
AS MENINAS (Tavito - Elder Braga) - com Tavito

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