quarta-feira, 23 de maio de 2012

A PAIXÃO DE DONA CÉLIA PELO MANO CAETANO

Crônica das quartas-feiras - 01


O ano era 1966 e ainda havia no ar um gosto de ressaca. O Brasil acabara de cumprir a sua pior campanha em uma Copa do Mundo; fomos desclassificados na primeira etapa (eram as oitavas de final), na Inglaterra, mais propriamente em Liverpool, a terra dos Beatles, já na época os reis do mundo.  E dançamos perdendo para Portugal, com um tal de Euzébio acabando com a nossa alegria. Para não perder a piada, a gente dizia que "o time português jogou com 13 em campo: além dos outros 10, tinha 'eu', 'zé' e 'biu'".

Mas, como o futebol já era, o bom mesmo era ver televisão. Bons tempos aqueles, sem rede nacional a pasteurizar o gosto de todo mundo . O Recife tinha o Canal 2 (TV Jornal do Commercio) e o Canal 6 (TV Rádio Clube/Tupi, dos Associados) e para cá vinham os grandes espetáculos da música brasileira. Todo sábado à noite, no Canal 2 tinha o “Noite de Black Tie”. E todo santo domingo havia o “Você Faz o Show”. Os artistas locais brilhavam em pé de igualdade com os grandes nomes que vinham para cá. Era uma festa...

A TV também trazia, através do “milagre do vídeo-tape”, muitos shows e programas bacanas do Sul do País. Sobretudo os musicais da TV Record e da TV Excelsior. Era o comecinho daquilo que ficaria conhecido como Música Popular Brasileira, a velha e quase sempre boa MPB. Era a época dos festivais da Excelsior, cujo primeiro revelou Elis Regina ganhando com “Arrastão” (Edu Lobo/Vinicius de Moraes). Ainda naquele ano, a Record realizaria um festival de arromba, quando o já famoso Geraldo Vandré e um menino orelhudo e de olhos tristes chamado Chico Buarque de Holanda dividiriam o primeiro lugar com as suas “Disparada” (parceria com Theo de Barros) e “A Banda”.

Um desses bons programas da TV Record passava às terças-feiras com o título improvável de “Esta Noite Se Improvisa”, um teste de conhecimentos musicais que ficaria conhecido em todo o País pelo bordão criado pelo seu apresentador Blota Júnior: “A palavra é...”. A brincadeira de acertar (e cantar) a música a partir da palavra sugerida virou febre nacional, espalhando-se pelos bares e lares tupiniquins. E revelou um lado muito legal de “astros e estrelas” da imberbe MPB, como o próprio Chico Buarque, Wilson Simonal, Carlos Imperial, Ronnie Von, Elza Soares, Nara Leão, Gilberto Gil,  Claudette Soares, Caetano Veloso.

E Caetano era uma festa à parte para os telespectadores. Dono de uma memória e de um conhecimento musical invejáveis, ele acabava ganhando quase todas. Com isso arrebanhava fãs que ainda nem o conheciam pela sua música - havia tirado um tímido 5º lugar no festival da Excelsior com a esquecida “Boa Palavra”, defendida por Maria Odette, e só explodiria mesmo um ano mais tarde, no histórico Festival da Record, com “Alegria, Alegria”, marco do Tropicalismo e da própria MPB. Entre esses fãs estava Dona Célia, que imediatamente “adotou” o jovem cantor e compositor baiano, torcendo por ele desbragadamente todas as noites de terça-feira.

 - A palavra é... MALEITA! - sentenciou Blota Junior, num desses programas, sob os olhares incrédulos de quase todos os concorrentes.

Todos, menos Caetano que, sem pestanejar, tocou a campainha que assegurava a vez de responder. Foi para o microfone e cantou, inteirinha e de um fôlego só “Sussuarana” (Heckel Tavares e Luiz Peixoto), uma antiga canção dos anos 1930. Sem errar a letra de uma música que ninguém ali conhecia, ele chegou até o trecho que lhe garantiu a vitória: “Foi coisa feita / Foi mandinga, foi maleita / Que nunca mais indireita / Que nos botaro, é capaz...”.

O público no Teatro Record  veio abaixo. Lá em casa, em frente da televisão, minha mãe (Ah! Dona Célia é a minha mãe!) não se conteve. Emocionada, começou a enumerar, com pleno e total entusiasmo, as qualidades artísticas e intelectuais do já (àquela altura) seu grande ídolo.

- Mas, esse menino é muito novo! Ele não podia conhecer essa música, que a minha mãe cantava quando eu era pequena, lá em São Caetano! É um gênio! Que memória musical!

Ao que eu me lembre, a parti dali, Caetano Veloso passou a exercer um fascínio extraordinário sobre Dona Célia, que não perdia uma apresentação dele na TV; que torceu feito louca por “Alegria, Alegria”, revoltando-se com o “injusto” 4º lugar; que sofreu quando o baiano foi embora, exilado, para Londres; que adorava quando Roberto Carlos cantava “Debaixo dos Caracóis dos Seus Cabelos”, que o Rei compôs quando Caetano estava no exílio. Qualquer coisa vinda de Caetano Veloso para ela era o máximo. Dona de um gosto musical apurado, fã de Elizete Cardoso e Silvio Caldas, ela “curtia” muita gente boa e de talento. Mas, Caetano Veloso... Ah! Esse estava acima do bem e do mal.

Caetano Veloso para a minha mãe era como se fosse o seu irmão mais novo. A paixão era tanta que ela costumava repetir que tinha uma certeza na vida: a de que Caetano e ela já se conheciam de algum tempo e de algum lugar, adoravam um ao outro, mesmo sem nunca terem se visto. Mesmo sem nunca ter ido a um show do ídolo, ela sabia que a demora para que os dois se entendessem com o olhar era apenas o tempo de se verem. E a cena já estava pronta, na cabeça dela, há muito tempo. Feito um filme.

- Ah, e eu não sei?! Quando a gente se encontrar, ele vai parar na minha frente, abrir os braços, sorrir de orelha a orelha e me dizer: “Célia Maria! Há quanto tempo!”

Exagero? Que nada! Vai ver era isso mesmo que iria acontecer. Ou não.



Veja e Ouça "Sussuarana" (Heckel Tavares - Luiz Peixoto), com Maria Bethania e Nana Caymmi

4 comentários:

Alexandre Lemos disse...

Boa demais, rapaz, crônica é um troço tão brasileiro e ao mesmo tempo é tão raro hoje no Brasil. Parabéns e mantenha o padrão!!! rsrs ... Sobre o tema, lembro a primeira vez de Caetano nesse programa. Ele foi apresentado como "irmão da Maria Bethânia", ninguém o conhecia. Você deve recordar que ao lado de cada concorrente do "a palavra é" ficava uma urna. O processo era assim: o espectador ia entrando no auditório e colocava um papel com seu nome na urna de quem ele achava que seria o vencedor da noite. Ao final do show, a urna do vencedor era aberta e se sorteava um nome, a quem se davam prêmios. Nesta primeira vez, a urna de Caetano tinha um único "voto". Dava a impressão, até, que a produção convencera alguém a "votar" nele pra urna não ficar vazia. Pois Caetano ganhou com sobras e a felizarda espectadora saiu cheia de presentes do programa.

Inácio França disse...

Ei Gil,

a admiração intensa de sua mãe por Caetano parece ser também a mesma que você (e Giba) têm por ela.

Toque em frente. Grande abraço.

Sonya Prazeres disse...

ei, Gil, maravilha, que lembrança linda vc me trouxe no seu texto... eu fui fã-tiéte de Caetano, como sua mãe, também o "descobri" no programa de Blota Junior, e o seguia por toda parte... quando ele foi exilado, eu chegava no jornaleiro, acho que era 4ª feira, quando saía o Pasquim, que trazia sempre um texto do moço talentoso, e perguntava: - saiu carta do ídolo? depois, quando ele voltou, passei a segui-lo de show em show, viajando pelo Brasil atrás dele... ih, tenho é história pra contar... agradecida, amigo, por este presente, e aproveito para dar os parabéns pelo prêmio (merecidíssimo) de PELA JANELA.... um grande abraço, vou ler seus outros textos... adorei!

Fernando Cavallieri disse...

Nossa, parceiro... A partir de hoje, vou oferecer várias do Caetano, então, pra Dona Célia! Com um Beijo Grande de admiração instantânea por ela!