Crônica das quartas-feiras - 01
O ano era 1966 e ainda havia no ar um gosto de
ressaca. O Brasil acabara de cumprir a sua pior campanha em uma Copa do Mundo;
fomos desclassificados na primeira etapa (eram as oitavas de final),
na Inglaterra, mais propriamente em Liverpool, a terra dos Beatles, já na época
os reis do mundo. E dançamos perdendo para
Portugal, com um tal de Euzébio acabando com a nossa alegria. Para não perder a
piada, a gente dizia que "o time português jogou com 13 em campo: além dos outros 10,
tinha 'eu', 'zé' e 'biu'".
Mas, como o futebol já era, o bom mesmo era ver televisão. Bons
tempos aqueles, sem rede nacional a pasteurizar o gosto de todo mundo . O Recife tinha o Canal 2 (TV Jornal do
Commercio) e o Canal 6 (TV Rádio Clube/Tupi, dos Associados) e para cá vinham
os grandes espetáculos da música brasileira. Todo sábado à noite, no Canal 2 tinha o “Noite de Black Tie”. E todo santo domingo havia o “Você Faz o Show”. Os artistas locais brilhavam em pé de igualdade com os grandes nomes
que vinham para cá. Era uma festa...
A TV também trazia, através do “milagre do vídeo-tape”,
muitos shows e programas bacanas do Sul do País. Sobretudo os musicais da TV
Record e da TV Excelsior. Era o comecinho daquilo que ficaria conhecido como
Música Popular Brasileira, a velha e quase sempre boa MPB. Era a época dos
festivais da Excelsior, cujo primeiro revelou Elis Regina ganhando com
“Arrastão” (Edu Lobo/Vinicius de Moraes). Ainda naquele ano, a Record realizaria um
festival de arromba, quando o já famoso Geraldo Vandré e um menino orelhudo e de olhos
tristes chamado Chico Buarque de Holanda dividiriam o primeiro lugar com as suas “Disparada”
(parceria com Theo de Barros) e “A Banda”.
Um desses bons programas da TV Record passava às
terças-feiras com o título improvável de “Esta Noite Se Improvisa”, um teste de
conhecimentos musicais que ficaria conhecido em todo o País pelo bordão criado
pelo seu apresentador Blota Júnior: “A palavra é...”. A brincadeira de acertar
(e cantar) a música a partir da palavra sugerida virou febre nacional,
espalhando-se pelos bares e lares tupiniquins. E revelou um lado muito legal de
“astros e estrelas” da imberbe MPB, como o próprio Chico Buarque, Wilson
Simonal, Carlos Imperial, Ronnie Von, Elza Soares, Nara Leão, Gilberto Gil,
Claudette Soares, Caetano
Veloso.
E Caetano era uma festa à parte para os telespectadores. Dono
de uma memória e de um conhecimento musical invejáveis, ele acabava ganhando quase
todas. Com isso arrebanhava fãs que ainda nem o conheciam pela sua música - havia tirado um
tímido 5º lugar no festival da Excelsior com a esquecida “Boa Palavra”,
defendida por Maria Odette, e só explodiria mesmo um ano mais tarde, no
histórico Festival da Record, com “Alegria, Alegria”, marco do Tropicalismo e
da própria MPB. Entre esses fãs estava Dona Célia, que imediatamente “adotou” o
jovem cantor e compositor baiano, torcendo por ele desbragadamente todas as
noites de terça-feira.
- A palavra é...
MALEITA! - sentenciou Blota Junior, num desses programas, sob os olhares
incrédulos de quase todos os concorrentes.
Todos, menos Caetano que, sem pestanejar, tocou a campainha
que assegurava a vez de responder. Foi para o microfone e cantou, inteirinha e
de um fôlego só “Sussuarana” (Heckel Tavares e Luiz Peixoto), uma antiga
canção dos anos 1930. Sem errar a letra de uma música que ninguém ali conhecia, ele chegou até o trecho que lhe garantiu a vitória: “Foi coisa feita / Foi mandinga,
foi maleita / Que nunca mais indireita / Que nos botaro, é capaz...”.
O público no Teatro Record veio abaixo. Lá em casa, em frente da televisão, minha mãe (Ah! Dona Célia é a minha mãe!) não se conteve. Emocionada, começou a enumerar, com pleno e total entusiasmo, as qualidades artísticas e intelectuais do já (àquela altura) seu grande ídolo.
O público no Teatro Record veio abaixo. Lá em casa, em frente da televisão, minha mãe (Ah! Dona Célia é a minha mãe!) não se conteve. Emocionada, começou a enumerar, com pleno e total entusiasmo, as qualidades artísticas e intelectuais do já (àquela altura) seu grande ídolo.
- Mas, esse menino é muito novo! Ele não podia conhecer essa
música, que a minha mãe cantava quando eu era pequena, lá em São Caetano! É um gênio! Que memória musical!
Ao que eu me lembre, a parti dali, Caetano Veloso passou a
exercer um fascínio extraordinário sobre Dona Célia, que não perdia uma
apresentação dele na TV; que torceu feito louca por “Alegria, Alegria”,
revoltando-se com o “injusto” 4º lugar; que sofreu quando o baiano foi embora, exilado, para Londres; que adorava quando Roberto Carlos cantava “Debaixo dos
Caracóis dos Seus Cabelos”, que o Rei compôs quando Caetano estava no exílio. Qualquer
coisa vinda de Caetano Veloso para ela era o máximo. Dona de um gosto musical
apurado, fã de Elizete Cardoso e Silvio Caldas, ela “curtia” muita gente boa e
de talento. Mas, Caetano Veloso... Ah! Esse estava acima do bem e do mal.
Caetano Veloso para a minha mãe era como se fosse o seu
irmão mais novo. A paixão era tanta que
ela costumava repetir que tinha uma certeza na vida: a de que Caetano e ela já se
conheciam de algum tempo e de algum lugar, adoravam um ao outro, mesmo sem nunca terem se visto. Mesmo sem
nunca ter ido a um show do ídolo, ela sabia que a demora para que os dois se
entendessem com o olhar era apenas o tempo de se verem. E a cena já
estava pronta, na cabeça dela, há muito tempo. Feito um filme.
- Ah, e eu não sei?! Quando a gente se encontrar, ele vai parar na
minha frente, abrir os braços, sorrir de orelha a orelha e me dizer: “Célia
Maria! Há quanto tempo!”
Exagero? Que nada! Vai ver era isso mesmo que iria acontecer. Ou não.
Veja e Ouça "Sussuarana" (Heckel Tavares - Luiz Peixoto), com Maria Bethania e Nana Caymmi
Veja e Ouça "Sussuarana" (Heckel Tavares - Luiz Peixoto), com Maria Bethania e Nana Caymmi

4 comentários:
Boa demais, rapaz, crônica é um troço tão brasileiro e ao mesmo tempo é tão raro hoje no Brasil. Parabéns e mantenha o padrão!!! rsrs ... Sobre o tema, lembro a primeira vez de Caetano nesse programa. Ele foi apresentado como "irmão da Maria Bethânia", ninguém o conhecia. Você deve recordar que ao lado de cada concorrente do "a palavra é" ficava uma urna. O processo era assim: o espectador ia entrando no auditório e colocava um papel com seu nome na urna de quem ele achava que seria o vencedor da noite. Ao final do show, a urna do vencedor era aberta e se sorteava um nome, a quem se davam prêmios. Nesta primeira vez, a urna de Caetano tinha um único "voto". Dava a impressão, até, que a produção convencera alguém a "votar" nele pra urna não ficar vazia. Pois Caetano ganhou com sobras e a felizarda espectadora saiu cheia de presentes do programa.
Ei Gil,
a admiração intensa de sua mãe por Caetano parece ser também a mesma que você (e Giba) têm por ela.
Toque em frente. Grande abraço.
ei, Gil, maravilha, que lembrança linda vc me trouxe no seu texto... eu fui fã-tiéte de Caetano, como sua mãe, também o "descobri" no programa de Blota Junior, e o seguia por toda parte... quando ele foi exilado, eu chegava no jornaleiro, acho que era 4ª feira, quando saía o Pasquim, que trazia sempre um texto do moço talentoso, e perguntava: - saiu carta do ídolo? depois, quando ele voltou, passei a segui-lo de show em show, viajando pelo Brasil atrás dele... ih, tenho é história pra contar... agradecida, amigo, por este presente, e aproveito para dar os parabéns pelo prêmio (merecidíssimo) de PELA JANELA.... um grande abraço, vou ler seus outros textos... adorei!
Nossa, parceiro... A partir de hoje, vou oferecer várias do Caetano, então, pra Dona Célia! Com um Beijo Grande de admiração instantânea por ela!
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