quarta-feira, 30 de maio de 2012

CONHECI LOLITA. DEVO CONHECER O RECIFE...

Crônica das quartas-feiras - 02


Quem não conheceu Lolita não conheceu o Recife das décadas de 1960 e 70. E eu acabei conhecendo Lolita. Posso jactar-me (ops!), portanto, de conhecer o Recife. Só que muitos dos lugares e logradouros da capital pernambucana velha de guerra, eu, de fato, nunca vi. Acreditam que eu nunca fui ao Totó, nem ao Córrego do Abacaxi, ou Zumbi do Pacheco? Pode parecer incrível, mas, aos 56 anos de vida, tem bairros recifenses onde ainda não botei o pé. São poucos, mas existem. Agora, Lolita eu conheci.

Foi lá pelo ano de 1975, quando eu comecei a cursar o “científico” no saudoso União Colégio e Curso, ali na Rua Fernandes Vieira, pertinho da Celpe e do Sindicato dos Jornalistas. A simpática rua que sai do Parque Amorim e termina na Soledade ainda era completamente arborizada, com enormes pés de oiti. Eram tempos mais tranquilos, mesmo levando-se em conta que vivíamos em um dos períodos mais barra-pesada da ditadura militar. Nas escolas, nas ruas, campos, construções, porém, a coisa era mais maneira. O pau cantava nos quartéis, mas a gente ainda podia andar a pé, de madrugada, sem precisar ser, necessariamente, roubado ou morto.

O Recífilis ainda tinha os seus encantos, os seus bordéis do Recife Antigo, as suas “mulheres de tantas vidas, das noites tão bem vividas e das tardes mal dormidas”, como cantou o poeta paulista Elder Braga a respeito de mulheres de outra terra. A zona era uma festa absolutamente democrática, aberta a ricos, pobres e remediados. E possuía uma fauna riquíssima, com figuras marcantes, entre as quais pululavam bêbados oradores, decadentes doutores, boêmios cantores, respeitáveis senhores fugindo de suas respeitáveis rotinas, belas meninas que não beijavam na boca com medo de se apaixonar, travestis que até enganavam os incautos, bichas brabas feito um siri na lata. Nesse último grupo, Lolita reinava solene e impávida.

- Quem não conhece Lolita não conhece o Recife – era o bordão que marcava a presença de Ivo Alves da Silva no pedaço. Pernambucano de Nazaré da Mata, era um baixinho invocado, alegre e completamente sem medo de ser feliz ou de levar porrada. Rezava a lenda que para prender Lolita era preciso uma guarnição com pelos menos oito soldados da PM; o pau cantava e ele só ela levado na viatura desmaiado de tanto apanhar, bater e resistir.

Lolita sempre aparecia na zona do Recife, embora frequentasse com mais desenvoltura a zona do Pina, onde morava ou, como gostava de dizer  “se escondia”. Mas, a farra acontecia em qualquer lugar aonde a figura chegasse. Podia ser um comício vetusto da ARENA (Aliança Renovadora Nacional, um dos dois partidos existentes no período militar – o outro era o Movimento Democrático Brasileiro, o MDB)-, podia ser numa greve de estudantes contra a repressão nas universidades, não importava. Quando menos esperava, chegava “Lola”, dançando, cantando, greiando, dando flash.

Lembro-me de um desses momentos memoráveis, na frente da Escola de Engenharia da Universidade Federal de Pernambuco, que ficava ali na Rua Hospício, colado ao recém-inaugurado (hoje fechado) Cinema Veneza.

- Será que eu sou feeeeeeia? - Trinava Lolita o refrão de um mega sucesso de Ângela Maria.
- Não é, não senhooooor! – Respondiam os estudantes.
- Então eu sou liiiiiinda?
- Você é um amooooor!

E a farra começava, com a estudantada enchendo os copos (deles e de Lolita) e dando por encerrados os trabalhos de aniquilamento radical da ditadura militar. A cantoria “O povo unido jamais será vencido” dava lugar a clássicos como “Esta Noite Eu Queria que o Mundo Acabasse” ou “Cinderela” (“Menina-moça, coração a palpitar...”), interpretados com langor e sofreguidão pela maior estrela da noite.

Lolita foi “única”, embora existissem algumas outras figuras que sempre procuraram lhe seguir a trilha. Célebre lá no Amaro Branco, em Olinda, “Tonha Preta” mesmo era um deles e tinha todas as características de Lolita, “na brabeza e na safadeza”. Com a diferença que era um negrão de 2 metros de altura. Mas, nenhum deles logrou a fama e o prestígio de “Lola”.

E apesar de poder dizer que conheço o Recife porque conheci Lolita, isto só veio a acontecer mesmo foi em Olinda. Numa farra noturna no Alto da Sé, onde eu e alguns amigos e amigas fazíamos um som, movido a violão, a água que passarinho não bebe e, para alguns, a cigarro que “passarinho não fuma”. Estava na roda, com a gente, o saudoso Pai Edu, um dos mais queridos babalorixás pernambucanos. De repente, o pai-de-santo olha para o mirante da Sé e grita: “Lolita!”. E a nossa personagem chega, se apresenta como de praxe e se incorpora à cantoria para o gáudio geral. Naquela noite, a danada cantou de tudo: clássicos de Waldick Soriano, Nelson Gonçalves, Núbia Lafaytette, Lindomar Castilho, além de pérolas do repertório da sua querida e inevitável  Ângela Maria. E, claro, encerrou apoteoticamente com “Babaloooooo – Aiêêê”, que era uma das suas marcas registradas.

Até que um amigo nosso (não lembro quem), resolveu saber o que a figura estava fazendo ali no Alto da Sé, e não nas ruas do Recife. Lolita contou que estava morando uns dias na casa de uma amiga (sabe-se lá se era homem ou mulher) e que estava adorando viver na Cidade Alta. Acendeu um “continental sem filtro”, tomou um gole cerveja e soltou:

- Ah, meu filho! Agora meu reinado é igual ao de Dom Helder Câmara: Olinda e Recife!

Gargalhadas gerais. Desce o pano.

P.S: Em julho de 1975, o hoje extinto JORNAL DA CIDADE publicava uma ótima entrevista com Lolita, feita pelos jornalistas Ivan Maurício, Beth Salgueiro, Vera Ferraz, Geraldo Sobreira e Jones Melo. Tinha graça não publicar o link, não é?   http://www.enciclopedianordeste.com.br/nova531.php

P.S.2: Por falar nisso, onde andará Lolita?


Músicas citadas nesta crônica:

GAROTA SOLITÁRIA/DESTINO DA LUA (Adelino Moreira) - com Angela Maria


AS MENINAS (Tavito - Elder Braga) - com Tavito



domingo, 27 de maio de 2012

...E DEIXEI A VIDA ENTRAR


Apá no Festival da Assembléia Legislativa do Ceará, abrindo portas e janelas

Estou voltando de Fortaleza em estado de graça. Fui lá para assistir à final do Festival de Música da Assembléia Legislativa do Ceará, no qual a minha parceirinha Apá Silvino marcava presença com a nossa "Janela Aberta". Uma música que fizemos há uns 4 ou 5 anos, que canta esperança e que tem um refrão grudento que faz canção um dos "hits" dos shows que Apá pelo Nordeste. Para a minha felicidade, a canção acabou eleita pelo júri como a melhor e faturou o 1º Lugar, com Apá levando o troféu de Melhor Intérprete, de uma maneira ampla e totalmente merecida.

Apá Silvino, de quem tenho o enorme privilégio de ser parceiro em mais de 70 canções, é uma cantora maravilhosa, o que não chega a ser novidade, pelo menos no Ceará. Não tenho qualquer receio de colocá-la entre as melhores do País. E é uma compositora genial, melodista como poucas e de uma sensibilidade ímpar. O CD "Sinal de Cais", que ele lançará ainda este ano, traz um pouco do que temos feito juntos e do que ela tem produzido com parceiros como Sonekka, Zé Edu Camargo, Barbara Rodrix e Pedro Mota, além de uma parceira inédita com Zé Rodrix, mestre de todos nós e  "padrinho" de Apá que, infelizmente, não está mais com a gente, para ver o dia de estrela chegar para sua pupila querida.

"Janela Aberta", que estará neste CD que vem por aí, é a "cara" de Apá Silvino. Foi feita em cima de uma letra que mandei pra ela, sem qualquer pretensão. Um poema-letra curtinho, com quatro estrofes e um refrão, falando do amor, da vida, do amor vivo e da vida com amor. Simples. Despretensiosa a não ser em uma coisa: ser simples, descomplicada, feliz e empanturrada de esperança. Eu poderia ter escrito "Janela Aberta" nos últimos dias - comigo, nos últimos dois anos, tanta coisa aconteceu e aconteceu e aconteceu, como a paisagem da vida ganhando forma e entrando pela janela por absoluta falta de opção. É inevitável. Não há outra coisa a um ser vivente fazer que não abrir a janela e deixar a vida entrar. Está tudo aí, ainda e já.

Em Fortaleza, afora a hospitalidade e o carinho da clã dos Silvino, eu tive a honra de participar de um festival como nos bons tempos. Organizado, emocionante e feliz no que se propôs no que conseguiu. Com tanta música bonita e tanta gente de talento que voltei pro Recife certo de que ainda vale a pena uma série de coisas e que nem tudo na música é o que gente ouve ao ligar o rádio ou a televisão. Que bom que eu estava lá. E que bom estar vivo para fazer canções com Apá Silvino. Que bom eu ter deixado (às vezes, até esquecido...) a janela aberta. E que bom quando a gente mantém a esperança de que a vida vai entrar e decidir o que fazer. É grande a possibilidade de dar certo, como está dando certo. Até porque a vida sabe o que faz. Ainda bem. Graças a Deus!


JANELA ABERTA
(Apá Silvino-Gilvandro Filho)

Que som é esse
Que vem do porto da barra
Que chega nas mãos do vento
E brota através do mar

Que vento é esse
Que me traz essa cantiga
Parece uma voz amiga
Que não cansa de cantar

Eu apenas abri a janela
E deixe a vida entrar
Eu apenas abri a janela
E deixei a vida entrar

Que tom é esse
Que azula o meio-dia
Que me pede poesia
E me impede de falar

Que acorde é esse
Que instrumento tocaria
Que constrói a melodia
E faz o meu peito pulsar

Eu apenas abri a janela
E deixe a vida entrar
Eu apenas abri a janela
E deixei a vida entrar

quinta-feira, 24 de maio de 2012

1969 - O BEIJO DO TEMPO



* musicada por Tavito


Havia uma flor
Perdida dentro de um jardim azul
Havia cor
E o som que a gente ouvia era blue
Havia em mim
Uma esperança livre, escancarada
Havia, sim
Uma sempre nascente madrugada
Havia mais
Um passarim perdido na clareira
Havia uns tais
Que escorriam pela ribanceira
Havia ali
Atrás do porto uma cidade gris
Havia em ti
A decisão total de ser feliz

Havia algo no ar
Beijo do tempo
Havia a cor do vento
Havia o mar
Havia tudo por lá
E nem preciso
De juízo
Pra lembrar

Hare Krishna,
Krishna, Krishna
Hare Rama
Hare, Hare

Havia, eu sei
Uma fumaça a nos fazer sonhar
Havia a lei:
A gente era livre pra se amar
Havia luz
Pois era tempo de iluminar
Havia cruz
Onde nos colocavam pra falar
Havia, além
Desejo de beijar e de beber
Havia um bem
Que teus olhos faziam florescer
Havia eu
Que sempre procurava sem achar
E havia um Deus
Que sempre me fazia acreditar

Havia algo no ar
Beijo do tempo
Havia a cor do vento
Havia o mar
Havia tudo por lá
E nem preciso
De juízo
Pra lembrar

Hare Krishna,
Krishna, Krishna
Hare Rama
Hare, Hare

MÃE


* musicada por Sonekka

Água
Rio
À noite faz frio
E a canção faz lembrar
Terra
Mata
A serenata
Que a vida me quer cantar

Homem
Grande
Mas tão menino
Um peregrino a te buscar
Fogo
Chama
E quem nos ama
Aclama um pacto com o luar

Hoje eu pensei tanto em ti
Que a natureza chorou de pena
Hoje eu procurei por ti
E a vida estava tão pequena
Pequena...

Beijo
Abraço
É tudo espaço
Como faço para te falar
Eu paro
Eu ando
Durmo acordando
Esperando alguém me embalar

Amor
Destino
Meus desatinos
Teu menino cresceu
Vida
Fumaça
O tempo passa
Ninguém te abraça, só eu

Hoje eu pensei tanto em ti
Que a natureza chorou de pena
Hoje eu procurei por ti
E a vida estava tão pequena
Pequena...

O SONHO


* musicada por Apá Silvino

Hoje de manhã
O sol entrou pela janela
E acordou
No meu olhar os olhos dela
Uma canção
O sol pareceu transmitir
Sonho tão real
A música ficou pra mim

Esteja bem, meu amor
E seja alegre quando triste
Não pense, meu amor
Em nada que à paixão resiste
Sorria, meu amor
Até se acabar de rir
E pense, meu amor
O que importa é existir

Faça como a chuva
Que cai pra espalhar a vida
Deite-se no campo
Sinta a madrugada viva
Olhe para o alto
E agradeça o que é tão bom
Cante todo tempo
Sem se importar com o tom

Eu estou por perto
Não sou mais o que fui
Já não há deserto
Tempestade, só de luz
Faça o que quiser
E dê mais do que seja lei
Seja feliz, meu amor
Amando assim como eu lhe amei

quarta-feira, 23 de maio de 2012

A PAIXÃO DE DONA CÉLIA PELO MANO CAETANO

Crônica das quartas-feiras - 01


O ano era 1966 e ainda havia no ar um gosto de ressaca. O Brasil acabara de cumprir a sua pior campanha em uma Copa do Mundo; fomos desclassificados na primeira etapa (eram as oitavas de final), na Inglaterra, mais propriamente em Liverpool, a terra dos Beatles, já na época os reis do mundo.  E dançamos perdendo para Portugal, com um tal de Euzébio acabando com a nossa alegria. Para não perder a piada, a gente dizia que "o time português jogou com 13 em campo: além dos outros 10, tinha 'eu', 'zé' e 'biu'".

Mas, como o futebol já era, o bom mesmo era ver televisão. Bons tempos aqueles, sem rede nacional a pasteurizar o gosto de todo mundo . O Recife tinha o Canal 2 (TV Jornal do Commercio) e o Canal 6 (TV Rádio Clube/Tupi, dos Associados) e para cá vinham os grandes espetáculos da música brasileira. Todo sábado à noite, no Canal 2 tinha o “Noite de Black Tie”. E todo santo domingo havia o “Você Faz o Show”. Os artistas locais brilhavam em pé de igualdade com os grandes nomes que vinham para cá. Era uma festa...

A TV também trazia, através do “milagre do vídeo-tape”, muitos shows e programas bacanas do Sul do País. Sobretudo os musicais da TV Record e da TV Excelsior. Era o comecinho daquilo que ficaria conhecido como Música Popular Brasileira, a velha e quase sempre boa MPB. Era a época dos festivais da Excelsior, cujo primeiro revelou Elis Regina ganhando com “Arrastão” (Edu Lobo/Vinicius de Moraes). Ainda naquele ano, a Record realizaria um festival de arromba, quando o já famoso Geraldo Vandré e um menino orelhudo e de olhos tristes chamado Chico Buarque de Holanda dividiriam o primeiro lugar com as suas “Disparada” (parceria com Theo de Barros) e “A Banda”.

Um desses bons programas da TV Record passava às terças-feiras com o título improvável de “Esta Noite Se Improvisa”, um teste de conhecimentos musicais que ficaria conhecido em todo o País pelo bordão criado pelo seu apresentador Blota Júnior: “A palavra é...”. A brincadeira de acertar (e cantar) a música a partir da palavra sugerida virou febre nacional, espalhando-se pelos bares e lares tupiniquins. E revelou um lado muito legal de “astros e estrelas” da imberbe MPB, como o próprio Chico Buarque, Wilson Simonal, Carlos Imperial, Ronnie Von, Elza Soares, Nara Leão, Gilberto Gil,  Claudette Soares, Caetano Veloso.

E Caetano era uma festa à parte para os telespectadores. Dono de uma memória e de um conhecimento musical invejáveis, ele acabava ganhando quase todas. Com isso arrebanhava fãs que ainda nem o conheciam pela sua música - havia tirado um tímido 5º lugar no festival da Excelsior com a esquecida “Boa Palavra”, defendida por Maria Odette, e só explodiria mesmo um ano mais tarde, no histórico Festival da Record, com “Alegria, Alegria”, marco do Tropicalismo e da própria MPB. Entre esses fãs estava Dona Célia, que imediatamente “adotou” o jovem cantor e compositor baiano, torcendo por ele desbragadamente todas as noites de terça-feira.

 - A palavra é... MALEITA! - sentenciou Blota Junior, num desses programas, sob os olhares incrédulos de quase todos os concorrentes.

Todos, menos Caetano que, sem pestanejar, tocou a campainha que assegurava a vez de responder. Foi para o microfone e cantou, inteirinha e de um fôlego só “Sussuarana” (Heckel Tavares e Luiz Peixoto), uma antiga canção dos anos 1930. Sem errar a letra de uma música que ninguém ali conhecia, ele chegou até o trecho que lhe garantiu a vitória: “Foi coisa feita / Foi mandinga, foi maleita / Que nunca mais indireita / Que nos botaro, é capaz...”.

O público no Teatro Record  veio abaixo. Lá em casa, em frente da televisão, minha mãe (Ah! Dona Célia é a minha mãe!) não se conteve. Emocionada, começou a enumerar, com pleno e total entusiasmo, as qualidades artísticas e intelectuais do já (àquela altura) seu grande ídolo.

- Mas, esse menino é muito novo! Ele não podia conhecer essa música, que a minha mãe cantava quando eu era pequena, lá em São Caetano! É um gênio! Que memória musical!

Ao que eu me lembre, a parti dali, Caetano Veloso passou a exercer um fascínio extraordinário sobre Dona Célia, que não perdia uma apresentação dele na TV; que torceu feito louca por “Alegria, Alegria”, revoltando-se com o “injusto” 4º lugar; que sofreu quando o baiano foi embora, exilado, para Londres; que adorava quando Roberto Carlos cantava “Debaixo dos Caracóis dos Seus Cabelos”, que o Rei compôs quando Caetano estava no exílio. Qualquer coisa vinda de Caetano Veloso para ela era o máximo. Dona de um gosto musical apurado, fã de Elizete Cardoso e Silvio Caldas, ela “curtia” muita gente boa e de talento. Mas, Caetano Veloso... Ah! Esse estava acima do bem e do mal.

Caetano Veloso para a minha mãe era como se fosse o seu irmão mais novo. A paixão era tanta que ela costumava repetir que tinha uma certeza na vida: a de que Caetano e ela já se conheciam de algum tempo e de algum lugar, adoravam um ao outro, mesmo sem nunca terem se visto. Mesmo sem nunca ter ido a um show do ídolo, ela sabia que a demora para que os dois se entendessem com o olhar era apenas o tempo de se verem. E a cena já estava pronta, na cabeça dela, há muito tempo. Feito um filme.

- Ah, e eu não sei?! Quando a gente se encontrar, ele vai parar na minha frente, abrir os braços, sorrir de orelha a orelha e me dizer: “Célia Maria! Há quanto tempo!”

Exagero? Que nada! Vai ver era isso mesmo que iria acontecer. Ou não.



Veja e Ouça "Sussuarana" (Heckel Tavares - Luiz Peixoto), com Maria Bethania e Nana Caymmi

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

NOS TEUS OLHOS

 ZIZA PADILHA - NOS TEUS OLHOS (Ziza Padilha - Gilvandro Filho) by gilvandrofilho

* sobre música de Ziza Padilha


Foi nos teus olhos
Que eu aprendi
A ver a luz
E a traduzir estrelas

Eu nem sabia
Que o teu olhar
Me levaria
À dádiva de vê-las

Oh, minha amada
Foi teu olhar
Meu ponto de partir
Meu porto de voltar a ser

E a vida inteira
Te procurar
Pra te encontrar no verso
E ver o universo no teu olhar

Foi nos teus olhos
Que eu aprendi
A ver a lua
E a traduzir estrelas

Eu nem sabia
Que o teu olhar
Me levaria
À dádiva de vê-las

Oh, minha amada
Foi teu olhar
Meu ponto de partir
Meu porto de voltar a ser

E a vida inteira
Te procurar
Pra te encontrar no verso
E ver o universo no teu olhar

Oh, minha amada...

ATÉ BREVE


* musicada por Apá Silvino


Chegou a hora de dizer
O que eu ainda não pude falar
O que é preciso pra viver
Aqui ou em qualquer lugar
Existe, sim, e é tão real
O grande amor na despedida
E o amor que sinto por você
Comigo viverá
Por toda a minha vida

O barco deixa o velho cais
Se perde aos poucos no horizonte
E de repente a nós, não mais
É dado beber dessa fonte
Mas, do outro lado, muito além
Alguém de longe o barco avista
E é a hora de recomeçar
Surge um novo mar
Renova a nossa vida

Penso em você a cada instante
Mas penso de forma tão leve
Nessa hora em que dizemos
Até breve

Penso em você a cada instante
Mas penso de forma tão leve
Nessa hora em que dizemos
Até breve, até breve

Deixo você seguir, enfim
Eu sei que o medo é natural
Penso em você pensando em mim
O amor também é desapego
E o que foi feito ficará
O que nasceu não morre assim
Um dia eu vou te encontrar
Não sei em qual lugar
Só sei que não existe o fim

A dor existe e é real
Mas, logo essa dor termina
É quando o amor ainda maior
Acena lá na outra esquina
O rumo é certo e natural
Começa uma nova história
E vida segue o seu sem fim
Pra você e para mim
Feito a canção que eu canto agora

Penso em você a cada instante
Mas penso de forma tão leve
Nessa hora em que dizemos
Até breve

Penso em você a cada instante
Mas penso de forma tão leve
Nessa hora em que dizemos
Até breve, Até breve
Até...

DEVE SER POR ISSO QUE EU TE AMO


* musicada por Apá Silvino


Um veio de água limpa que desaba
Faz reviver a terra e a sede acaba
Um sol que nasce a cada alvorada
Que faz parir de luz a madrugada
E uma voz que canta quando eu chamo
É o vento que renova toda a vida
Que sopra a esperança esquecida
Deve ser por isso que eu te amo

O mar que leva vida aos quatro ventos
Define o azul e traça o firmamento
São sete os oceanos desse mundo
Deserto fértil, azul e tão profundo
E o que não é só meu, mas que eu reclamo
E tomo para guardar enquanto eu queira
A vida existe de qualquer maneira
Deve ser por isso que eu te amo

Se o Deus, senhor de todos os destinos
Rege os meus sonhos e os meus desatinos
Se fez o céu só pra nascerem estrelas
E pra depois nos dar o dom de vê-las
Se os versos que sem mais nem menos tramo
Traduzem o que me ouço e o que te vejo
Se o sonho é a nascente do desejo
Deve ser por isso que eu te amo

Deve ser por isso que eu te chamo
Toda hora e todos os momentos
Se existem o mar, o céu e o vento
Deve ser por isso que eu te amo

COMPANHEIRINHA

 EDUARDO FRANCO - COMPANHEIRINHA (Apá Silvino - Gilvandro Filho) by gilvandrofilho

* musicada por Apá Silvino


O sol ardeu, se despediu da tarde
E a lua azul pediu pra se chegar
A noite fez mudar toda paisagem
E o vento a música soprou no ar
E a menina de olhos cor da noite
Abriu sorriso, refletiu o luar

Companheirinha, guarda bem meus segredos
Brinquedo que esqueci em algum lugar
Canção que a lua brilha logo cedo
Verso que existe para se cantar
Nas mãos, a chave que abriu a porta
Nos pés, a trilha para caminhar

A luz da lua desenhou seu nome
A última estrela veio aqui brilhar
E o mundo acordará ao som da brisa
Quando Luiza amanhecer luar

SONHO DE VOAR

 LUA MARINA - SONHO DE VOAR (Ugo Castro Alves - Gilvandro Filho) by gilvandrofilho

* musicada por Ugo Castro Alves


Salta aos olhos o que tenho pra chorar
Bebo tudo que essa sede vai passar
Canto e danço que o som vem pelo ar
Pinto e bordo que a canção renascerá
Chove em mim tempestade que caiu
E um deserto que de seco até sumiu
Abro o riso que a tristeza fugirá
Abro o peito e deixo vir o que virá

Desafio toda a sorte de azar
A princípio todo o fim assim será
Ilumino a tocha azul desse gongá
E o cristal das águas alumiará
Pelos trilhos trem daqui partiu
E um foguete pelo céu velas abriu
Me alimento desse sonho de voar
Abro a porta que a janela se abrirá

DEUS NA PRAIA


* musicada por Apá Silvino


Gravou na pedra os seus sentimentos
Para mais tarde ler tudo em voz alta
Olhou pro alto, de algo sentiu falta
...E cantou um por um todos os sete ventos

Calou no peito uma vontade morna
De dissipar possíveis euforias
Assegurou-se quanto às alegrias
...Sabendo que uma dor de amor sempre retorna

Pediu passagem à lua que era cheia
Aventurou-se à paixão mais nova
Crescentemente viu-se em plena areia
...Minguando sempre que se colocava à prova

Deitou na praia e não sonhou com nada
Arrebentou na onda o próprio peito
Silenciou. E entre medo e respeito
...Deixou apenas desfilar a madrugada

Dormiu no chão e acordou com sede
A água da chuva transformou-se em vinho
Não era um deus mas criou seu caminho
...E após os sete dias descansou na rede

Pediu passagem à lua que era cheia
Aventurou-se à paixão mais nova
Crescentemente viu-se em plena areia
...Minguando sempre que se colocava à prova

BODAS DE CRISTAL


* sobre música de Ziza Padilha


Assim como o céu e o ar
São uma coisa só
E o rio sempre a correr
Complementa o mar

Assim como beija a flor
Passarinho azul
E se o vento vem cantar
É canção de amor

E se as cordas vibram
Emoldurando a voz
É como o acontecer de um sinal

Assim é a vida
Assim foi com a gente
Intensa claridade do cristal

Tão clara como um cristal
É a luz da paixão
Guarda o brilho e dá o tom
E transborda o coração

O cristal que ilumina a voz
E recria a luz
Cristalino em seus bemóis
E em seus tons azuis

Já faz tanto tempo
Ao mesmo tempo, é hoje
Se o dia nasce é só porque eu te chamo

E se noite chega
É só porque a mesma lua
Repete a cada brilho que eu te amo

Eu te amo
Eu te amo
Eu te amo demais

PRA TENTAR VIVER

 DAYSE ADDARIO - PRA TENTAR VIVER (Ziza Padilha - Gilvandro Filho) by gilvandrofilho

* sobre música de Ziza Padilha


É... pra não ter problemas
Tinha que nem viver
Pra não viver dilemas
Só se eu fosse sem ser

Pra tentar viver e errar
Na trilha desse meu dia
Eu gelei ao sol
Me queimei na tua guerra fria

E no momento certo
Jeito de dor vencida
Eu me deixei por perto
A contemplar a vida

Dores de amor, um canto qualquer
Tema de amores perdidos
Riso que chorei
Sonhei sonhos desiludidos

Agonizei no nada
Fiz de mim mesmo o tema
E em plena madrugada
Te fiz esse poema

Eu quero ser, como espero viver
Não há mal que o coração
Não releve ao final
E não cure com o seu perdão

TUDO & NADA


* musicada pro Tavito


Mesmo que pareça frase feita
Mesmo se alegria a dor rejeita
Amanhã será um novo dia
Amanhã a harmonia viverá

Cantará o vento um canto mudo
Nada em especial, apenas tudo
Tudo o que puder fazer que faça
Pois a vida passa e sempre passará

Dia com sabor de madrugada
Tudo tudo ser
Até não ser nada, nada, nada
Ter na mente e no corpo o além
Viver o que a vida deu pra gente
Intensamente

Amanhã será um outro dia
Mas o hoje ainda não acabou
Nada é o tudo que já foi um dia
Tudo é o nada que não começou

FLOR D'ÁGUA

 LUHLI - FLOR D'ÁGUA (Luhli - Gilvandro Filho) by gilvandrofilho
* musicada por Luhli

É noite e eu nem anoiteci
da manhã mal me refiz
Já vejo claridade na flor dágua
e do profundo lago azul nem emergi

Apenas com o gosto da estrela
a iluminar a minha sede
sem mágoa, sem dor demais
Saudade que embala minha rede
e a tristeza que vai virar luz
apesar do nunca mais

Corpo e alma
guardo o direito de chorar
por quem sofro calado
Corpo e alma
tento um sofrimento feliz
almejando a paz

Flor d'água
um amor desapegado
que liberta e deixa navegar
cada lágrima um mar
Flor d'água
rumo à luz nessa viagem
o infinito é quase nada
e o adeus é até já

Simplesmente a luz....

INTERESSES


* musicada por Luhli


Não me interessa a teia
A inteira e a meia
Mas me interessa a areia
O mar de amor, água salgada
Só me interessa a veia
Onde me corre o sangue, e mais nada

Não me interessa o peso da ciência
Aqui nessa água

Mais vale a impaciência
Madrugada que varre a ilusão
Mais vale a incoerência
Que acaba com o freio da razão

Não tô nem aí
Pra tantos porquês
Sem pé nem cabeça
Só quero entender
Com o coração

Não tou nem aí
Mas quero saber
Tudo que mereço
Tenho saudades
Do que não conheço...

ESTRELAS


* musicada por Apá Silvino

Por toda a vida eu esperei estrelas
Sempre tive nso meus sonhos loucos
Um temor extremo de perdê-las
E um desejo de retê-las aos poucos

Toca noite eu sonhava com o vento
Escancarando portes e janelas
E em cada sonho, um acontecimento
Comemorado em festas paralelas

Quando me deito ainda rezo muito
Pra que o sonho não não me fuja à toa
Que seja um tema bom
Pago ou gratuito
Que a noite traga uma lembrança boa

CANTAR PRA SER FELIZ


* musicada por Apá Silvino

O verso certo doma o peito
Aberto assim com todo jeito
Ajeita o canto na medida
Certa e certa de que fiz na vida um bem

Se a noite é longa surge o dia
Claro como a benção da alegria
E a agonia de sofrer se esvai
É como se comigo cantasse mais alguém

Não é pra me agradar
Não é pra me aplaudir
Pra me fazer de que
Ou até pra me ouvir
Pra entender porque
Saber o que se diz
Eu canto pra viver
E pra ser feliz

E agora o grito manso aquieta
Aquela ansia de manter alerta
A mente aberta que me pede luz
Iluminando a casa e a vida e tudo enfim

E se mais tarde o verso arde
Ardido amor em prosa e som
O bom e o mau cantando azul
Qual anjo azul que canta luz em mim

Não é pra me agradar
Não é pra me aplaudir
Pra me fazer de que
Ou até pra me ouvir
Pra entender porque
Saber o que se diz
Eu canto pra viver
E pra ser feliz

AMANHECÊNCIA


* musicada por Adryana BB

Na minha terra
O amanhecer é tão bonito
Colorido e infinito
Quando céu recebe o mar
E cada estrela
Vai dormir tão sossegada
Deixando na madrugada
Uma saudade pra guardar

Na minha terra
Passarinho chega primeiro
Galo canta no terreiro
Coqueiro balança o ar
Cada marola
Que se deita sobre a areia
Faz gerar um sereia
E uma estrela do mar

Na minha terra
Onde a luz da existência
Se traduz na amanhecência
Na vivência de cantar
E cada canto
Tem o tom da natureza
Que empresta sua beleza
E recebe a voz do mar

Na minha terra
Tem mais sol e tem mais lua
Minha terra tem o vento
Tem o rio e tem o mar
Fulô no cacho
Fruto bom na trepadeira
Tem riacho e tem palmeira
Onde encanta o sabiá