quinta-feira, 15 de novembro de 2012

AS JANELAS AZUIS DE TARCISO VILLAÇA



Uma figura inesquecível. Baixinho, espirituoso até a última gota da cerveja que lhe fazia bem e lhe deixava ainda mais espevitado e gente boa. Boêmio, gostava de ver o sol aparecer na barra do dia, nos céus do Hipódromo – ali pertinho da Encruzilhada – cantando, ouvindo a gente tocar violão e derrubando uma a uma as brahmas que mandava buscar no Bar da Maga. Eu e Fernando Franco, meu amigo-irmão e genro da figura em tela, nos divertíamos com as histórias, com as presepadas e com a graça sem fim de Tarciso Villaça. Era a cereja do bolo de nossas cantorias. A parte mais animada e brilhante daquelas noitadas.

Com ele, inseparável, um caderno sem pautas, lotado de letras de músicas, todas escritas à mão, com capricho. Ali tinha de tudo: “Alguém me disse” que imortalizou Anysio Silva, “Nick Bar” que ele cantava empostando a voz a la Dick Farney, até músicas da Jovem Guarda que a gente cantava já pra lá de Bagdá saudando o final da esbórnia.

Mas, uma música, gravada por Maria Creuza, Tarciso vivia pedindo pra gente tocar e nada de a gente conhecer. Não tinha no caderno, muito menos na minha memória ou na de Fernando.

-Vai, rapaz, lembra aí... é assim: ‘Janelas azuis, num segundo o tempo voltou... ela é outra, eu sou outro...’”.

E fazendo um gesto com o indicador pra cima, arrematava:

- E o final é assim: ‘um táxi, por favor!’”. E cadê a gente saber da tal canção? Não tinha jeito.

Essa busca incessante pelas “janelas azuis” aconteceu enquanto houve farra, durou enquanto houve Tarciso. Um dia, sem combinar direito com a gente, ele foi se embora. A gente ficou sem as brahmas, sem as músicas, sem o violão, sem o sol choramingando pra nascer no céu do Hipódromo. A gente ficou sem Tarciso e sem as janelas azuis.

O tempo passou e essas histórias ficaram, lembradas sempre que a gente pega um violão e toca e canta e fala sobre aquele tempo e sobre Tarciso. Lembradas junto com Fernando. Junto com Cristina, filha dele, mulher de Fernando e minha amiga. Com Almerinda, mulher dele e protagonista de outras histórias, como aquela quando fez a figura dormir no sofá depois de uma birita meio mal-assombrada

- Ela me expulsou do leito conjugal -, disse o nosso herói com os olhos vermelhos e, claro, um copo de cerveja bem geladinha na mão.

Ficou a lembrança, e uma lembrança querida demais.

Aí vem a internet para lembrar que a vida passa, mas as pistas ficam por aí, no ciberespaço. Hoje, eu estava trabalhando e navegando quando parei na página do youtube. E naquela barrinha que traz umas sugestões de vídeos, um delas quase me fez cair da cadeira. Estava lá: “Maria Creuza – Janelas Azuis”. Não acreditei. Aquilo era recado da Tarciso. Que está em algum lugar lá por cima, feliz sob alguma janela azul, reencontrando alguns amigos (será que tem serenata por lá?) e tornando o céu bem mais animado.

Não deu outra. Foi só abrir uma cerveja, botar a música (no arquivo de vídeo) para tocar e tornar mais alegre esse 15 de novembro cansado de guerra. E no final da canção, levantar o copo e cantar (em coro com ele, com certeza):

- Um táxi, por favor!

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Abaixo, a “prova do crime”: “Janelas Azuis”, de Rildo Hora e Sérgio Cabral, na voz linda de Maria Creuza. Tim-tim, Tarciso Villaça!



MARIA CREUZA
JANELAS AZUIS
(Rildo Hora - Sérgio Cabral)

Quinze anos depois
E a rua em nada mudou
Janelas azuis
Num segundo o tempo voltou
Um olhar, quinze anos]
O que é que faço aqui?
Ela é outra, eu sou outro
Meus Deus
É melhor ir me embora
Um táxi, por favor
Foi engano senhora
Adeus

Janelas azuis
Num segundo o tempo voltou
Um olhar, quinze anos
O que é que faço aqui?
Ela é outra, eu sou outra
Meus Deus
É melhor ir me embora
Um táxi, por favor
Foi engano, senhora
Adeus

terça-feira, 6 de novembro de 2012

EU VI E OUVI JACARÉ NO SCOTCH BAR. ISSO É PARA POUCOS

Jacaré - foto colhida na página do cantor Xico de Assis


Eu saía do Jornal do Commercio, ainda ali na Rua do Imperador, por volta das dez da noite, e o destino era inevitável, normalmente às quintas-feiras. Parava o carro em frente aos armazéns de açúcar próximos ao Marco Zero, atravessava a rua, cruzava a calçada. Abria a porta e a fumaça de cigarro explodia na minha cara, junto com o barulho de conversa e de música. Era um tempo bom, sem lei seca e outras normas que unem o útil ao desagradável. Eu estava no Scotch Bar.

Nunca fui de grandes pileques. Mas, o meu uisquinho das quintas era manso e sagrado. Chegava lá e Martinha já sabia o que eu queria. A dose de "johnny red" sobre três pedrinhas de gelo chegava sem eu nem pedir. E antes de eu dizer "Boa noite!", ela já gritava para a moça que trabalha na cozinha estreita: "Um pão francês prensado na chapa com queijo do reino!". Pronto, naquele comecinho dos anos 1990, eu estava quase no céu.

O Recife Antigo ainda guardava boêmia. Era outra coisa. Vivia cheio de gente. Havia vida inteligente e ativa no velho bairro. Praticamente toda a semana. Muitos bares e restaurantes, gente na rua até tarde da noite. Festa que acabaria alguns anos depois quando esqueceram de cuidar do lugar. Uma pena.

E naquele nicho, o Scotch Bar era reduto soberano. Tinha, a 10 metros, o Bar do 28, com freguesia antiga e cativa. Mas eu nunca ia por lá. O Scotch Bar era tudo. Agradava-me o clima meio "pub" do lugar. Aprazia-me, particularmente, o seu bom gosto musical. A música ambiente era no volume certo e não se tocava porcaria. Na primeira dose, eu parava para ouvir Frank Sinatra e Billie Holliday. Na segunda, eu pedia para bisar Cartola e Nelson Cavaquinho. Na terceira eu já terçava, baixinho, duetos com Núbia Lafayette e Orlando Dias.

"Tu és a criatura mais linda / que os meus olhos já viram...". Martinha jurava que a canção era pra ela. Pra que desmentir?

Aquele cenário de uma simplicidade majestosa ficava ainda melhor quando adentrava o recinto uma figura tímida, magrinha, com os olhos vermelhos (talvez também de sono), com um cavaquinho debaixo do braço. Chegava sempre acompanhado de um violonista e de outro músico com um pandeiro na mão. Injustiça da gota, mas não consigo lembrar o nome desses outros artistas da noite. Mas lembro, e muito, de Jacaré, o "mago" (em todos os sentidos) daquele cavaquinho.

A sua chegada era uma festa para os ouvidos e para o coração de quem gosta de música. Mas, música daquelas que, sem saudosismo, não se acha mais aí pelos bares e pelas esquinas. Humilde e extremamente talentoso, Jacaré saía desfiando Garotos, Dilermandos, Eriveltos, Noéis e Adelinos. Vez em quando, ele caprichava em Pixinguinhas, Nazarés e Chiquinhas Gonzagas. Tudo com a mesma graça, com a mesma calma. Sempre com a mesma generosidade.

Mas, no repertório mais popular era onde ele parecia se sentir mais à vontade. Solava ou acompanhava um ou outro boêmio que pedia, e ganhava, uma canja. Aguentava os desafinos com paciência de Jó. Às vezes, tínhamos a sorte de aparecer alguém cantando bem. E então a festa era mais bonita.

"Sei que esse argumento é muito pobre / Mas sabendo quanto és nobre / Sei que podes perdoar...", cantava um "Nelson Gonçalves" bebum, gordo e bigodudo, relembrando da amada que ele nem sabia por onde andava.

E a noite seguia mansa feito a brisa que vez por outra balançava (eu juro que vi!!) as barbas do Barão de Rio Branco que, feito de história e pedra, abençoava a Avenida Alfredo Lisboa, a Avenida Marquês de Olinda, a Rua do Bom Jesus, Praça do Arsenal e adjacências. A terra de Jacaré.



Quem teve oportunidade de ver e ouvir esse Mestre das cordas, com certeza não esquece mais. Para quem não teve esse privilégio, acima vai uma palinha do som de Jacaré.


CHORO FREVADO
Em 1998, Jacaré gravou o estupendo "Choro Frevado", que saiu já em LP e CD pela Funarte/Atração Fonográfica, na Série Acervo de Música Brasileira, Vol.35. É da capa desse disco que tirei o texto a seguir:

Jacaré (Antônio da Silva Torres), compositor e instrumentista (Recife PE 12/6/1929—01/04/2005), fez os primeiros estudos com seu pai, Josias, que era barbeiro, e, aos nove anos, já começava a solar no cavaquinho as primeiras composições. Trabalhando como ajudante de alfaiate, recebeu o apelido de Jacaré, dado por Arlindo Melo, também compositor de marchas carnavalescas e alfaiate.

Em 1957 passou a integrar o regional da Rádio Clube de Pernambuco, ao lado de músicos de renome na época: Felinho, China, Otacílio Feitosa, Nelson Miranda, Martins da Sanfona, Martins do Pandeiro e outros. Atuou no Rádio Clube até 1964, quando, com o fim dos programas de auditório, foi ganhar a vida tocando na noite, nos bares Canavial Drinks (dirigido por Heloísa Helena), Hotel São Domingos, Casa-Grande & Senzala e, já em 1982, no Bar do Bispo.

Participou, em outubro de 1984, do projeto Recife e Seus Artistas Populares, promovido pela Fundação de Cultura Cidade do Recife, ocasião em que conheceu Hermínio Bello de Carvalho e Maurício Carrilho, que o convidaram a integrar o Projeto Pixinguinha daquele ano.

No ano seguinte, 1985, gravou seu primeiro e único disco: Jacaré — Choro Frevado, sob o patrocínio da Prefeitura da Cidade do Recife. O disco só contém composições de sua autoria: Galho Seco, Saudade de Limoeiro, Goianinha, Jacaré de Saiote, Silvana, Vai e Vem, Jacaré Voador, Jacarezinho, Chorinho Caiçara, Pro Hermínio, Sem Rancor, Jaciara, Saudoso Cavaquinho.

sábado, 29 de setembro de 2012

CANÇÃO DA ESPERA



* musicada por Ziza Padilha
Voz: ZIZA PADILHA
Piano: LENILSON ALBUQUERQUE

Pensando em ti eu acordei sob o luar
Com mil estrelas me perdi da solidão
Na madrugada, o vento leve a me soprar
Uma cantiga pra acalmar meu coração

A noite inteira se eu sonhei, não sei falar
Se amanheci, o sonho não chegou ao fim
Anoitecendo eu aprendi a esperar
Que o amor te traga novamente para mim

Algum lugar, outro universo ou dimensão
De tantos astros haverás de te cansar
O pó da estrela vai tocar teu coração
E aí quem sabe, eu vou poder te encontrar

Se o sol nascer, e ele não vai sempre se por
A noite longa um dia pode se quedar
Esperarei por ti quando o dia se for
E acordarei pensando em ti, sob o luar

NALVINHA E O HOMEM NU NA PAREDE DE ‘SEU GIL’



Nalvinha não cozinhava lá essas coisas. Além disso, deixava minhas camisas amassadas. E, perto do carnaval, precisava queimar as manhãs seguintes para ir aos ensaios da Gigantes do Samba. Mas era muito gente boa. Tomava conta da casa direitinho, além de ter uma paciência de santa para cuidar das minhas duas cachorras: Kika, a collie de Marcela, e Samanta, uma rotweiller que adotei pra dar carreira em cabra safado que pulava pro quintal de casa, de madrugada.  Trabalhou comigo por volta de 1988, no período em que morei no Bongi, numa casa grande, branca, de quintal enorme. Onde vez por outra os coleguinhas de imprensa faziam umas festinhas mal-assombradas.

Nalvinha, além do alto astral, tinha bom humor e um senso das coisas (ou falta de) impagável. Como eu a achava um barato, eu nem a demiti quando ela derramou no ralo da área de serviço uma garrafa inteira de cachaça Havana (mineira, caríssima, que ganhei de final de ano). A singela desculpa foi de que a caninha “estava estragada, toda amarela!”. Também nem a esganei quando, ao receber uns amigos numa sexta-feira á noite, senti falta de dois queijos – um roquefort e um gorgonzola - que havia comprado pela manhã. Na segunda-feira seguinte, eu saberia que a prezada havia jogado fora os queijos que “estavam com cheiro de podre e cheios de uns bichinhos escuros...”.

Feito eu, Nalvinha adorava música. Sabia de cor todos os sucessos de Adilson Ramos. Chegou a conhecer Reginaldo Rossi (“mas, a gente era só amigo, seu Gil!”, frisava). E vez por outra até curtia as coisas que eu ouvia, normalmente nas manhãs de sábado, dia consagrado à cervejinha e à cachacinha, ambas bem geladas e com algum tira-gosto para lavar a alma e o juízo.

Num desses sábados foi dia de ouvir jazz e standards americanos. Frank e Nancy Sinatra rodopiavam na vitrola (discos de vinil, claro!) e mandavam, com maestria ímpar, o clássico “Something Stupid”. Enquanto pai e filha caprichavam no “I know I stand in line / Until you think you have the time / To spend an evening with me”, lá na cozinha Nalvinha cantarolava, enquanto ajeitava o almoço: “Existe um amor / dentro de mim que eu não posso / nem mais controlar...”.  De repente, ela adentra a sala com um peito de frango espetado no garfo e pergunta, toda cheia de autoridade:

- Isso é de Fernando Mendes! E ele deixou esse povo gravar?

Mas a melhor de Nalvinha foi no dia em que cheguei em casa com um presente que ganhei do amigo Solano José, grande repórter fotográfico e colega do Jornal do Brasil. Era a reprodução de uma foto clássica feita por Annie Leibovitz, com John Lennon, pelado, abraçado a Yoko Ono. Enquanto eu batia o prego fixando o quadro na parede, Nalvinha me olhava, desconfiada. E já sabendo da minha paixão de sempre pelos Beatles, não resistiu:

- Mas seu Gil, agora eu sei que o senhor gosta mesmo desse tal de João Lemos. Botar um retrato dele nu dentro de casa...

Grande Nalvinha...
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FRANK & NANCY SINATRA - SOMETHING STUPID (Carl Parks)


quarta-feira, 13 de junho de 2012

A CHEIA DO CAPIBARIBE E O MEU LANCHE NO ARCA


*Crônica das quartas-feiras - 04

Em meados de 1966 eu, fisicamente, era assim: se estava de frente, pensavam que eu estava de perfil; se estava de perfil... Ah, pensavam que eu tinha ido embora! Magro que só um graveto, eu vivia às voltas com algumas graves preocupações, naquele tempo: se estava hora da pelada no campinho da Praça do Hipódromo; se já tinha começado a passar National Kid na TV Rádio Clube, Canal 6; se a figurinha de Bita já estava à venda na banca da esquina, pois eu queria completar o meu álbum do Náutico Tricampeão. Ter 12 anos naquela época - eu falo de boca cheia - era muito melhor do que hoje. Pelo menos era mais livre, mais divertido e menos perigoso.

Em 1966, o Recife viveu uma de suas grandes enchentes. O Capibaribe subiu 9,20 metros além do seu nível normal, 175 pessoas morreram e mais de 10 mil ficaram desabrigadas.  Várias localidades foram inundadas, muita gente perdeu casa e todo o pouco que tinha. Os milhares de desabrigados lotavam os abrigos que foram improvisados em escolas, quadras esportivas, centros sociais urbanos e clubes, como a Associação Recreativa e Cultural da Antárctica, o lendário ARCA, vizinho lá de casa, na Estrada de Belém, em Campo Grande, onde hoje tem uma Assembleia de Deus. Pertinho do Hipódromo, onde moravam os meus avós e quase todos os meus amigos de molecagem.

Foi braba aquela enchente. Eu me lembro de descer a Rua do Rio (olha o nome!) para ver as casas com água até o telhado. Era um tal de cachorro perdido que dava pena. Como dava mais pena ainda das pessoas, atarantadas, móveis na cabeça, gavetas com roupas encharcadas e misturadas a bujões do gás no carro de mão. Um sofrimento infinito nos olhos e quase nenhuma esperança. A família de um dos meus amigos de bola perdeu a casa naquela inundação. Covardia! O Capibaribe não poupava nem os meus amigos...

No ARCA, o gerente  Pedro Soares, o ”Pedro Baiano”, tratava de abrigar a todos que para lá eram mandados. Generosidade era a marca daquela figura rara, que gostava de pegar no gol nas peladas de futebol de salão (inventariam isso de 'futsal' muito depois), amava o Santa Cruz e era colecionador de velhos discos de acetato, sobretudo os de Luiz Gonzaga, Ângela Maria, Glenn Miller e Anísio Silva. Para quem não viveu a época: esses discos eram aqueles bolachões de 78 rpm, pesados, com uma música de cada lado. Igual ao que me trouxe aos ouvidos, pela primeira vez, a voz de Elvis Presley, cantando "Love Me Tender".

Feito o registro, voltemos a Pedrão. Pois, o cara atendia todo mundo com carinho e disponibilidade. Arrumava um canto na sala de troféus para uma família com um recém-nascido. Preparava, ele mesmo, um prato cheio (feijão, farinha, charque e ovo frito) para um senhor que apareceu puxando uma carroça com o que restava de sua casa destruída. De lá pra cá e de cá pra lá, essa figuraça coordenava o trabalho solidário no ARCA, que teve todas as suas atividades esportivas suspensas, inclusive o campeonato infantil de futebol de salão, onde eu jogava e até fazia uns golzinhos, aqui e ali.

Naqueles dias, aquela era a minha rotina: pular o muro da minha casa e seguir para o ARCA, ajudar o povo. Eu e alguns amigos de pelada. Carregávamos caixotes com comida e roupa, subíamos nos pés de manga e tirávamos frutas para os meninos abrigados no clube, voltávamos pra casa e conseguíamos umas moedas que serviam para aliviar a barra de alguém com mais carência que nós. Era um corre-corre danado. Mas era uma satisfação maior ainda, ajudar aquelas pessoas, me sentir útil e, no final da tarde, ainda bater uma bolinha com a rapaziada, time contra time, no quintal do clube.

Numa dessas idas e vindas, eu - vestido apenas com um calção cinzento e surrado, magro que só um tiziu, descalço, cabelo assanhado, todo sujo de areia e lama -, ia para mais uma das minhas "missões salvadoras" quando fui seguro pelo braço por um homem alto, vestido de branco e com um chapéu de aba larga na cabeça. Fiquei sem entender o que ele queria. Depois descobriria que ele era da prefeitura e estava ali supervisionando as coisas.

- Venha, venha, menino! Não se preocupe, venha!

Eu fui, até porque puxado pelo braço. O homem me levou para a cozinha, onde um cheiro bom de comida já acordava no pessoal a fome que às vezes ficava esquecida por causa de tanto trabalho. Lá dentro, uns cinco meninos, do mesmo 'tope' que eu. O homem me levou à cozinheira e esta me deu um copo enorme de leite com nescau e um pão gigantesco com manteiga turvo.

- Coma que você deve estar com muita fome, coitado!

A moça da cozinha, o homem de branco, todos pensavam que eu era um dos desabrigados. Nunca os culpei pelo engano, pois aparência eu tinha. Além disso, daqueles meninos que foram levados a lanchar na cozinha do ARCA, eu devia ser, sem nenhuma dúvida, o mais magro e com cara de fome.

Expliquei que morava na casa ao lado e que estava ali para ajudar. Não adiantou. A moça risonha e corpulenta gentilmente empurrou o pão pela minha boca e eu não tive outro jeito senão saborear aquele inesperado e totalmente bem vindo lanche das 5 da tarde. Que, diga-se de passagem, estava uma delícia.

A pelada com a rapaziada começou logo em seguida. E entrou pela noite.

PS.: Na semana passada, eu soube que o bom Pedro Baiano morreu atropelado por um caminhão. Que Deus o tenha!

quarta-feira, 6 de junho de 2012

A "INICIAÇÃO" DE LUIZA NO ESTÁDIO DOS AFLITOS

* Crônica das quartas-feiras - 03


Dividida entre pai alvirrubro e mãe e avô rubro-negros, a pequena Luiza acabou jogando por terra os meus planos de levar um filho, no caso uma filha, comigo aos Aflitos para me acompanhar nos jogos do Náutico. Não teve jeito. No começo, eu ainda consegui por na menina uma roupa bacana do Timba. Era uma camisa de listras vermelhas e brancas, réplica do "manto sagrado", com o qual ela chegou a frequentar alguns feriadões em Itamaracá, na casa do avô Alício, que olhava aquilo tudo com um sorriso amarelo e uma plena e total desconfiança: "Mas, logo a minha neta!?". 

O tempo passou, Luiza cresceu. E assumiu sua neutralidade clubista com toda dignidade, para meu desespero velado. Mas, dos males o menor. Se não envergou mais a gloriosa jaqueta alvirrubra, ela pelo menos nunca vestiu a camisa de nenhum outro clube. Muito menos ameaçou sair por aí de vermelho e preto. Até porque aí seria um pouco demais para o meu pobre coração alvirrubro.

Mas, não pensem que não tentei ganhá-la para a hostes de Conselheiro Rosa e Silva. E ela foi ao campo, uma vez, sim. Nunca me animei a escrever essa história que já contei, algumas vezes, aos amigos de copo e de cruz. Um deles, o grande Fernando Menezes, rubro-negro, jornalista dos velhos e bons tempos, muito insistiu para eu que eu fizesse uma crônica. Mas, eu relutava.

- "E eu vou lá expor a minha filhota, Fernando?".

E não cedi. Até a semana passada. Almoçando com as minhas duas filhas num desses domingos preguiçosos e absolutamente necessários à felicidade de um pai, a história veio à tona. Luiza, como sempre, achou um "mico". Marcela, a mais velha, que é do Náutico embora "não curta futebol", morreu de rir. Decidi. Vou, enfim, contar a saga.

Luiza tinha quatro anos de idade. Com seus cabelos cacheados e suas bochechas rechonchudas, ela ficava ainda mais linda no uniforme do Náutico. Decidi que estava na hora dela conhecer os Aflitos, ir comigo a um jogo, torcer pelo Náutico, enfim. O danado é que, naquele ano. o time era de doer. Não inspirava a menor confiança. O ataque era cardíaco. A defesa, um coração de mãe. Mas, era hora da grande iniciação. Fosse o que Deus quisesse.

Escolhi a dedo o jogo. Dia de sábado, 3 da tarde (era horário de verão), um emocionante Náutico x Íbis seria perfeito. Jogo sem problemas, que o Timbu ganharia fácil. Afinal, era o Íbis. Risco zero. Diversão garantida ou uma improvável volta pra casa de cabeça inchada. Mas, claro, isto não iria ocorrer.

Como moro perto, fomos ao estádio pela manhã, onde comprei meu ingresso. Visitamos a sede, tomamos sorvete em Vevête, lendário vendedor que até hoje faz a festa no clube, vendendo seus sorvetes maravilhosos, de várias cores. Depois levei Luiza para olhar os Aflitos.

- Veja, minha filha, tudo isto é seu, é nosso, é da família alvirrubra - me ufanei num misto de orgulho e idiotice. À pequenininha, claro, não interessava nada daquilo, a não ser a delícia gelada que ela sorvia, maravilhada.

Voltamos para casa, almoçamos. Na hora marcada, estávamos nas cadeiras dos Aflitos, para o começo do jogo. Eu com a minha latinha de cerveja (não havia Lei Seca naquela época) e Luiza com sua água mineral e um saco enorme de pipoca.

- Segura aí, Luluca! Daqui a pouco tem gol do Náutico pra gente comemorar.

E o jogo corria, com o Náutico jogando "pedra em santo". O danado do gol não saia. Nem ameaçava. O primeiro tempo terminava com o placar em branco. Eu, meio cabreiro. Luiza, nem aí, comendo pipocas e curtindo a farra.

No comecinho do segundo tempo, pênalti para o Náutico. Pronto. Era o que iria transformar a programação na festa de iniciação de Luiza.

- Olha aí, meu amor. Vamos torcer que vai sair o gol do Náutico!".

Luiza não ligou, mas tudo bem.

Olho no laaaance! Vai para a bola Sabino, um meia esquerda magro, de quase dois metros de altura, que nos assolou por uns tempos, com o seu futebol inoperante e improdutivo. Expectativa na torcida alvirrubra. Mascarado que Deus o livre e guarde, Sabino toma distância, corre pra bola e... Chuta longe da meta, com a pelota quase indo parar no Country Clube, que fica por detrás das arquibancadas dos Aflitos.

Não disse nada a Luiza, até para não quebrar o clima que, na minha cabeça, ainda estava favorável à sua iniciação. Continuei otimista, avisando que o gol viria a qualquer momento. Ela chegou a me perguntar o que era gol e porque o tal gol nunca vinha.

Mas, não é que o gol veio? No finzinho do jogo. Só que do Íbis. Uma zebra monumental. Botei Luluca no colo, e fomos saindo de fininho. Como ela não perguntou, eu não falei nada sobre o gol, nem sobre a derrota do Náutico para o "pior time do mundo".

O tempo passou, como é da natureza do tempo. Luiza foi crescendo e sua neutralidade futebolística se consolidou. Só muito depois é que ela soube dessa história, em detalhes. Por muitos anos, Luluca não fez ideia do que aconteceu naquela tarde em que saímos de casa para comemorar uma vitória do Náutico e acabamos no Parque da Jaqueira, pois tínhamos programa muito melhor a fazer.

P.S.: A foto da pequena Luiza de camisa alvirrubra, bochechas e cachinhos, existe, mas não ilustra esta crônica a pedido da personagem. Já foi um sofrimento deixar contar a história. Mas, a foto, não. Seria “mico” demais, alega a menina.

quarta-feira, 30 de maio de 2012

CONHECI LOLITA. DEVO CONHECER O RECIFE...

Crônica das quartas-feiras - 02


Quem não conheceu Lolita não conheceu o Recife das décadas de 1960 e 70. E eu acabei conhecendo Lolita. Posso jactar-me (ops!), portanto, de conhecer o Recife. Só que muitos dos lugares e logradouros da capital pernambucana velha de guerra, eu, de fato, nunca vi. Acreditam que eu nunca fui ao Totó, nem ao Córrego do Abacaxi, ou Zumbi do Pacheco? Pode parecer incrível, mas, aos 56 anos de vida, tem bairros recifenses onde ainda não botei o pé. São poucos, mas existem. Agora, Lolita eu conheci.

Foi lá pelo ano de 1975, quando eu comecei a cursar o “científico” no saudoso União Colégio e Curso, ali na Rua Fernandes Vieira, pertinho da Celpe e do Sindicato dos Jornalistas. A simpática rua que sai do Parque Amorim e termina na Soledade ainda era completamente arborizada, com enormes pés de oiti. Eram tempos mais tranquilos, mesmo levando-se em conta que vivíamos em um dos períodos mais barra-pesada da ditadura militar. Nas escolas, nas ruas, campos, construções, porém, a coisa era mais maneira. O pau cantava nos quartéis, mas a gente ainda podia andar a pé, de madrugada, sem precisar ser, necessariamente, roubado ou morto.

O Recífilis ainda tinha os seus encantos, os seus bordéis do Recife Antigo, as suas “mulheres de tantas vidas, das noites tão bem vividas e das tardes mal dormidas”, como cantou o poeta paulista Elder Braga a respeito de mulheres de outra terra. A zona era uma festa absolutamente democrática, aberta a ricos, pobres e remediados. E possuía uma fauna riquíssima, com figuras marcantes, entre as quais pululavam bêbados oradores, decadentes doutores, boêmios cantores, respeitáveis senhores fugindo de suas respeitáveis rotinas, belas meninas que não beijavam na boca com medo de se apaixonar, travestis que até enganavam os incautos, bichas brabas feito um siri na lata. Nesse último grupo, Lolita reinava solene e impávida.

- Quem não conhece Lolita não conhece o Recife – era o bordão que marcava a presença de Ivo Alves da Silva no pedaço. Pernambucano de Nazaré da Mata, era um baixinho invocado, alegre e completamente sem medo de ser feliz ou de levar porrada. Rezava a lenda que para prender Lolita era preciso uma guarnição com pelos menos oito soldados da PM; o pau cantava e ele só ela levado na viatura desmaiado de tanto apanhar, bater e resistir.

Lolita sempre aparecia na zona do Recife, embora frequentasse com mais desenvoltura a zona do Pina, onde morava ou, como gostava de dizer  “se escondia”. Mas, a farra acontecia em qualquer lugar aonde a figura chegasse. Podia ser um comício vetusto da ARENA (Aliança Renovadora Nacional, um dos dois partidos existentes no período militar – o outro era o Movimento Democrático Brasileiro, o MDB)-, podia ser numa greve de estudantes contra a repressão nas universidades, não importava. Quando menos esperava, chegava “Lola”, dançando, cantando, greiando, dando flash.

Lembro-me de um desses momentos memoráveis, na frente da Escola de Engenharia da Universidade Federal de Pernambuco, que ficava ali na Rua Hospício, colado ao recém-inaugurado (hoje fechado) Cinema Veneza.

- Será que eu sou feeeeeeia? - Trinava Lolita o refrão de um mega sucesso de Ângela Maria.
- Não é, não senhooooor! – Respondiam os estudantes.
- Então eu sou liiiiiinda?
- Você é um amooooor!

E a farra começava, com a estudantada enchendo os copos (deles e de Lolita) e dando por encerrados os trabalhos de aniquilamento radical da ditadura militar. A cantoria “O povo unido jamais será vencido” dava lugar a clássicos como “Esta Noite Eu Queria que o Mundo Acabasse” ou “Cinderela” (“Menina-moça, coração a palpitar...”), interpretados com langor e sofreguidão pela maior estrela da noite.

Lolita foi “única”, embora existissem algumas outras figuras que sempre procuraram lhe seguir a trilha. Célebre lá no Amaro Branco, em Olinda, “Tonha Preta” mesmo era um deles e tinha todas as características de Lolita, “na brabeza e na safadeza”. Com a diferença que era um negrão de 2 metros de altura. Mas, nenhum deles logrou a fama e o prestígio de “Lola”.

E apesar de poder dizer que conheço o Recife porque conheci Lolita, isto só veio a acontecer mesmo foi em Olinda. Numa farra noturna no Alto da Sé, onde eu e alguns amigos e amigas fazíamos um som, movido a violão, a água que passarinho não bebe e, para alguns, a cigarro que “passarinho não fuma”. Estava na roda, com a gente, o saudoso Pai Edu, um dos mais queridos babalorixás pernambucanos. De repente, o pai-de-santo olha para o mirante da Sé e grita: “Lolita!”. E a nossa personagem chega, se apresenta como de praxe e se incorpora à cantoria para o gáudio geral. Naquela noite, a danada cantou de tudo: clássicos de Waldick Soriano, Nelson Gonçalves, Núbia Lafaytette, Lindomar Castilho, além de pérolas do repertório da sua querida e inevitável  Ângela Maria. E, claro, encerrou apoteoticamente com “Babaloooooo – Aiêêê”, que era uma das suas marcas registradas.

Até que um amigo nosso (não lembro quem), resolveu saber o que a figura estava fazendo ali no Alto da Sé, e não nas ruas do Recife. Lolita contou que estava morando uns dias na casa de uma amiga (sabe-se lá se era homem ou mulher) e que estava adorando viver na Cidade Alta. Acendeu um “continental sem filtro”, tomou um gole cerveja e soltou:

- Ah, meu filho! Agora meu reinado é igual ao de Dom Helder Câmara: Olinda e Recife!

Gargalhadas gerais. Desce o pano.

P.S: Em julho de 1975, o hoje extinto JORNAL DA CIDADE publicava uma ótima entrevista com Lolita, feita pelos jornalistas Ivan Maurício, Beth Salgueiro, Vera Ferraz, Geraldo Sobreira e Jones Melo. Tinha graça não publicar o link, não é?   http://www.enciclopedianordeste.com.br/nova531.php

P.S.2: Por falar nisso, onde andará Lolita?


Músicas citadas nesta crônica:

GAROTA SOLITÁRIA/DESTINO DA LUA (Adelino Moreira) - com Angela Maria


AS MENINAS (Tavito - Elder Braga) - com Tavito



domingo, 27 de maio de 2012

...E DEIXEI A VIDA ENTRAR


Apá no Festival da Assembléia Legislativa do Ceará, abrindo portas e janelas

Estou voltando de Fortaleza em estado de graça. Fui lá para assistir à final do Festival de Música da Assembléia Legislativa do Ceará, no qual a minha parceirinha Apá Silvino marcava presença com a nossa "Janela Aberta". Uma música que fizemos há uns 4 ou 5 anos, que canta esperança e que tem um refrão grudento que faz canção um dos "hits" dos shows que Apá pelo Nordeste. Para a minha felicidade, a canção acabou eleita pelo júri como a melhor e faturou o 1º Lugar, com Apá levando o troféu de Melhor Intérprete, de uma maneira ampla e totalmente merecida.

Apá Silvino, de quem tenho o enorme privilégio de ser parceiro em mais de 70 canções, é uma cantora maravilhosa, o que não chega a ser novidade, pelo menos no Ceará. Não tenho qualquer receio de colocá-la entre as melhores do País. E é uma compositora genial, melodista como poucas e de uma sensibilidade ímpar. O CD "Sinal de Cais", que ele lançará ainda este ano, traz um pouco do que temos feito juntos e do que ela tem produzido com parceiros como Sonekka, Zé Edu Camargo, Barbara Rodrix e Pedro Mota, além de uma parceira inédita com Zé Rodrix, mestre de todos nós e  "padrinho" de Apá que, infelizmente, não está mais com a gente, para ver o dia de estrela chegar para sua pupila querida.

"Janela Aberta", que estará neste CD que vem por aí, é a "cara" de Apá Silvino. Foi feita em cima de uma letra que mandei pra ela, sem qualquer pretensão. Um poema-letra curtinho, com quatro estrofes e um refrão, falando do amor, da vida, do amor vivo e da vida com amor. Simples. Despretensiosa a não ser em uma coisa: ser simples, descomplicada, feliz e empanturrada de esperança. Eu poderia ter escrito "Janela Aberta" nos últimos dias - comigo, nos últimos dois anos, tanta coisa aconteceu e aconteceu e aconteceu, como a paisagem da vida ganhando forma e entrando pela janela por absoluta falta de opção. É inevitável. Não há outra coisa a um ser vivente fazer que não abrir a janela e deixar a vida entrar. Está tudo aí, ainda e já.

Em Fortaleza, afora a hospitalidade e o carinho da clã dos Silvino, eu tive a honra de participar de um festival como nos bons tempos. Organizado, emocionante e feliz no que se propôs no que conseguiu. Com tanta música bonita e tanta gente de talento que voltei pro Recife certo de que ainda vale a pena uma série de coisas e que nem tudo na música é o que gente ouve ao ligar o rádio ou a televisão. Que bom que eu estava lá. E que bom estar vivo para fazer canções com Apá Silvino. Que bom eu ter deixado (às vezes, até esquecido...) a janela aberta. E que bom quando a gente mantém a esperança de que a vida vai entrar e decidir o que fazer. É grande a possibilidade de dar certo, como está dando certo. Até porque a vida sabe o que faz. Ainda bem. Graças a Deus!


JANELA ABERTA
(Apá Silvino-Gilvandro Filho)

Que som é esse
Que vem do porto da barra
Que chega nas mãos do vento
E brota através do mar

Que vento é esse
Que me traz essa cantiga
Parece uma voz amiga
Que não cansa de cantar

Eu apenas abri a janela
E deixe a vida entrar
Eu apenas abri a janela
E deixei a vida entrar

Que tom é esse
Que azula o meio-dia
Que me pede poesia
E me impede de falar

Que acorde é esse
Que instrumento tocaria
Que constrói a melodia
E faz o meu peito pulsar

Eu apenas abri a janela
E deixe a vida entrar
Eu apenas abri a janela
E deixei a vida entrar

quinta-feira, 24 de maio de 2012

1969 - O BEIJO DO TEMPO



* musicada por Tavito


Havia uma flor
Perdida dentro de um jardim azul
Havia cor
E o som que a gente ouvia era blue
Havia em mim
Uma esperança livre, escancarada
Havia, sim
Uma sempre nascente madrugada
Havia mais
Um passarim perdido na clareira
Havia uns tais
Que escorriam pela ribanceira
Havia ali
Atrás do porto uma cidade gris
Havia em ti
A decisão total de ser feliz

Havia algo no ar
Beijo do tempo
Havia a cor do vento
Havia o mar
Havia tudo por lá
E nem preciso
De juízo
Pra lembrar

Hare Krishna,
Krishna, Krishna
Hare Rama
Hare, Hare

Havia, eu sei
Uma fumaça a nos fazer sonhar
Havia a lei:
A gente era livre pra se amar
Havia luz
Pois era tempo de iluminar
Havia cruz
Onde nos colocavam pra falar
Havia, além
Desejo de beijar e de beber
Havia um bem
Que teus olhos faziam florescer
Havia eu
Que sempre procurava sem achar
E havia um Deus
Que sempre me fazia acreditar

Havia algo no ar
Beijo do tempo
Havia a cor do vento
Havia o mar
Havia tudo por lá
E nem preciso
De juízo
Pra lembrar

Hare Krishna,
Krishna, Krishna
Hare Rama
Hare, Hare

MÃE


* musicada por Sonekka

Água
Rio
À noite faz frio
E a canção faz lembrar
Terra
Mata
A serenata
Que a vida me quer cantar

Homem
Grande
Mas tão menino
Um peregrino a te buscar
Fogo
Chama
E quem nos ama
Aclama um pacto com o luar

Hoje eu pensei tanto em ti
Que a natureza chorou de pena
Hoje eu procurei por ti
E a vida estava tão pequena
Pequena...

Beijo
Abraço
É tudo espaço
Como faço para te falar
Eu paro
Eu ando
Durmo acordando
Esperando alguém me embalar

Amor
Destino
Meus desatinos
Teu menino cresceu
Vida
Fumaça
O tempo passa
Ninguém te abraça, só eu

Hoje eu pensei tanto em ti
Que a natureza chorou de pena
Hoje eu procurei por ti
E a vida estava tão pequena
Pequena...

O SONHO


* musicada por Apá Silvino

Hoje de manhã
O sol entrou pela janela
E acordou
No meu olhar os olhos dela
Uma canção
O sol pareceu transmitir
Sonho tão real
A música ficou pra mim

Esteja bem, meu amor
E seja alegre quando triste
Não pense, meu amor
Em nada que à paixão resiste
Sorria, meu amor
Até se acabar de rir
E pense, meu amor
O que importa é existir

Faça como a chuva
Que cai pra espalhar a vida
Deite-se no campo
Sinta a madrugada viva
Olhe para o alto
E agradeça o que é tão bom
Cante todo tempo
Sem se importar com o tom

Eu estou por perto
Não sou mais o que fui
Já não há deserto
Tempestade, só de luz
Faça o que quiser
E dê mais do que seja lei
Seja feliz, meu amor
Amando assim como eu lhe amei

quarta-feira, 23 de maio de 2012

A PAIXÃO DE DONA CÉLIA PELO MANO CAETANO

Crônica das quartas-feiras - 01


O ano era 1966 e ainda havia no ar um gosto de ressaca. O Brasil acabara de cumprir a sua pior campanha em uma Copa do Mundo; fomos desclassificados na primeira etapa (eram as oitavas de final), na Inglaterra, mais propriamente em Liverpool, a terra dos Beatles, já na época os reis do mundo.  E dançamos perdendo para Portugal, com um tal de Euzébio acabando com a nossa alegria. Para não perder a piada, a gente dizia que "o time português jogou com 13 em campo: além dos outros 10, tinha 'eu', 'zé' e 'biu'".

Mas, como o futebol já era, o bom mesmo era ver televisão. Bons tempos aqueles, sem rede nacional a pasteurizar o gosto de todo mundo . O Recife tinha o Canal 2 (TV Jornal do Commercio) e o Canal 6 (TV Rádio Clube/Tupi, dos Associados) e para cá vinham os grandes espetáculos da música brasileira. Todo sábado à noite, no Canal 2 tinha o “Noite de Black Tie”. E todo santo domingo havia o “Você Faz o Show”. Os artistas locais brilhavam em pé de igualdade com os grandes nomes que vinham para cá. Era uma festa...

A TV também trazia, através do “milagre do vídeo-tape”, muitos shows e programas bacanas do Sul do País. Sobretudo os musicais da TV Record e da TV Excelsior. Era o comecinho daquilo que ficaria conhecido como Música Popular Brasileira, a velha e quase sempre boa MPB. Era a época dos festivais da Excelsior, cujo primeiro revelou Elis Regina ganhando com “Arrastão” (Edu Lobo/Vinicius de Moraes). Ainda naquele ano, a Record realizaria um festival de arromba, quando o já famoso Geraldo Vandré e um menino orelhudo e de olhos tristes chamado Chico Buarque de Holanda dividiriam o primeiro lugar com as suas “Disparada” (parceria com Theo de Barros) e “A Banda”.

Um desses bons programas da TV Record passava às terças-feiras com o título improvável de “Esta Noite Se Improvisa”, um teste de conhecimentos musicais que ficaria conhecido em todo o País pelo bordão criado pelo seu apresentador Blota Júnior: “A palavra é...”. A brincadeira de acertar (e cantar) a música a partir da palavra sugerida virou febre nacional, espalhando-se pelos bares e lares tupiniquins. E revelou um lado muito legal de “astros e estrelas” da imberbe MPB, como o próprio Chico Buarque, Wilson Simonal, Carlos Imperial, Ronnie Von, Elza Soares, Nara Leão, Gilberto Gil,  Claudette Soares, Caetano Veloso.

E Caetano era uma festa à parte para os telespectadores. Dono de uma memória e de um conhecimento musical invejáveis, ele acabava ganhando quase todas. Com isso arrebanhava fãs que ainda nem o conheciam pela sua música - havia tirado um tímido 5º lugar no festival da Excelsior com a esquecida “Boa Palavra”, defendida por Maria Odette, e só explodiria mesmo um ano mais tarde, no histórico Festival da Record, com “Alegria, Alegria”, marco do Tropicalismo e da própria MPB. Entre esses fãs estava Dona Célia, que imediatamente “adotou” o jovem cantor e compositor baiano, torcendo por ele desbragadamente todas as noites de terça-feira.

 - A palavra é... MALEITA! - sentenciou Blota Junior, num desses programas, sob os olhares incrédulos de quase todos os concorrentes.

Todos, menos Caetano que, sem pestanejar, tocou a campainha que assegurava a vez de responder. Foi para o microfone e cantou, inteirinha e de um fôlego só “Sussuarana” (Heckel Tavares e Luiz Peixoto), uma antiga canção dos anos 1930. Sem errar a letra de uma música que ninguém ali conhecia, ele chegou até o trecho que lhe garantiu a vitória: “Foi coisa feita / Foi mandinga, foi maleita / Que nunca mais indireita / Que nos botaro, é capaz...”.

O público no Teatro Record  veio abaixo. Lá em casa, em frente da televisão, minha mãe (Ah! Dona Célia é a minha mãe!) não se conteve. Emocionada, começou a enumerar, com pleno e total entusiasmo, as qualidades artísticas e intelectuais do já (àquela altura) seu grande ídolo.

- Mas, esse menino é muito novo! Ele não podia conhecer essa música, que a minha mãe cantava quando eu era pequena, lá em São Caetano! É um gênio! Que memória musical!

Ao que eu me lembre, a parti dali, Caetano Veloso passou a exercer um fascínio extraordinário sobre Dona Célia, que não perdia uma apresentação dele na TV; que torceu feito louca por “Alegria, Alegria”, revoltando-se com o “injusto” 4º lugar; que sofreu quando o baiano foi embora, exilado, para Londres; que adorava quando Roberto Carlos cantava “Debaixo dos Caracóis dos Seus Cabelos”, que o Rei compôs quando Caetano estava no exílio. Qualquer coisa vinda de Caetano Veloso para ela era o máximo. Dona de um gosto musical apurado, fã de Elizete Cardoso e Silvio Caldas, ela “curtia” muita gente boa e de talento. Mas, Caetano Veloso... Ah! Esse estava acima do bem e do mal.

Caetano Veloso para a minha mãe era como se fosse o seu irmão mais novo. A paixão era tanta que ela costumava repetir que tinha uma certeza na vida: a de que Caetano e ela já se conheciam de algum tempo e de algum lugar, adoravam um ao outro, mesmo sem nunca terem se visto. Mesmo sem nunca ter ido a um show do ídolo, ela sabia que a demora para que os dois se entendessem com o olhar era apenas o tempo de se verem. E a cena já estava pronta, na cabeça dela, há muito tempo. Feito um filme.

- Ah, e eu não sei?! Quando a gente se encontrar, ele vai parar na minha frente, abrir os braços, sorrir de orelha a orelha e me dizer: “Célia Maria! Há quanto tempo!”

Exagero? Que nada! Vai ver era isso mesmo que iria acontecer. Ou não.



Veja e Ouça "Sussuarana" (Heckel Tavares - Luiz Peixoto), com Maria Bethania e Nana Caymmi

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

NOS TEUS OLHOS

 ZIZA PADILHA - NOS TEUS OLHOS (Ziza Padilha - Gilvandro Filho) by gilvandrofilho

* sobre música de Ziza Padilha


Foi nos teus olhos
Que eu aprendi
A ver a luz
E a traduzir estrelas

Eu nem sabia
Que o teu olhar
Me levaria
À dádiva de vê-las

Oh, minha amada
Foi teu olhar
Meu ponto de partir
Meu porto de voltar a ser

E a vida inteira
Te procurar
Pra te encontrar no verso
E ver o universo no teu olhar

Foi nos teus olhos
Que eu aprendi
A ver a lua
E a traduzir estrelas

Eu nem sabia
Que o teu olhar
Me levaria
À dádiva de vê-las

Oh, minha amada
Foi teu olhar
Meu ponto de partir
Meu porto de voltar a ser

E a vida inteira
Te procurar
Pra te encontrar no verso
E ver o universo no teu olhar

Oh, minha amada...

ATÉ BREVE


* musicada por Apá Silvino


Chegou a hora de dizer
O que eu ainda não pude falar
O que é preciso pra viver
Aqui ou em qualquer lugar
Existe, sim, e é tão real
O grande amor na despedida
E o amor que sinto por você
Comigo viverá
Por toda a minha vida

O barco deixa o velho cais
Se perde aos poucos no horizonte
E de repente a nós, não mais
É dado beber dessa fonte
Mas, do outro lado, muito além
Alguém de longe o barco avista
E é a hora de recomeçar
Surge um novo mar
Renova a nossa vida

Penso em você a cada instante
Mas penso de forma tão leve
Nessa hora em que dizemos
Até breve

Penso em você a cada instante
Mas penso de forma tão leve
Nessa hora em que dizemos
Até breve, até breve

Deixo você seguir, enfim
Eu sei que o medo é natural
Penso em você pensando em mim
O amor também é desapego
E o que foi feito ficará
O que nasceu não morre assim
Um dia eu vou te encontrar
Não sei em qual lugar
Só sei que não existe o fim

A dor existe e é real
Mas, logo essa dor termina
É quando o amor ainda maior
Acena lá na outra esquina
O rumo é certo e natural
Começa uma nova história
E vida segue o seu sem fim
Pra você e para mim
Feito a canção que eu canto agora

Penso em você a cada instante
Mas penso de forma tão leve
Nessa hora em que dizemos
Até breve

Penso em você a cada instante
Mas penso de forma tão leve
Nessa hora em que dizemos
Até breve, Até breve
Até...

DEVE SER POR ISSO QUE EU TE AMO


* musicada por Apá Silvino


Um veio de água limpa que desaba
Faz reviver a terra e a sede acaba
Um sol que nasce a cada alvorada
Que faz parir de luz a madrugada
E uma voz que canta quando eu chamo
É o vento que renova toda a vida
Que sopra a esperança esquecida
Deve ser por isso que eu te amo

O mar que leva vida aos quatro ventos
Define o azul e traça o firmamento
São sete os oceanos desse mundo
Deserto fértil, azul e tão profundo
E o que não é só meu, mas que eu reclamo
E tomo para guardar enquanto eu queira
A vida existe de qualquer maneira
Deve ser por isso que eu te amo

Se o Deus, senhor de todos os destinos
Rege os meus sonhos e os meus desatinos
Se fez o céu só pra nascerem estrelas
E pra depois nos dar o dom de vê-las
Se os versos que sem mais nem menos tramo
Traduzem o que me ouço e o que te vejo
Se o sonho é a nascente do desejo
Deve ser por isso que eu te amo

Deve ser por isso que eu te chamo
Toda hora e todos os momentos
Se existem o mar, o céu e o vento
Deve ser por isso que eu te amo

COMPANHEIRINHA

 EDUARDO FRANCO - COMPANHEIRINHA (Apá Silvino - Gilvandro Filho) by gilvandrofilho

* musicada por Apá Silvino


O sol ardeu, se despediu da tarde
E a lua azul pediu pra se chegar
A noite fez mudar toda paisagem
E o vento a música soprou no ar
E a menina de olhos cor da noite
Abriu sorriso, refletiu o luar

Companheirinha, guarda bem meus segredos
Brinquedo que esqueci em algum lugar
Canção que a lua brilha logo cedo
Verso que existe para se cantar
Nas mãos, a chave que abriu a porta
Nos pés, a trilha para caminhar

A luz da lua desenhou seu nome
A última estrela veio aqui brilhar
E o mundo acordará ao som da brisa
Quando Luiza amanhecer luar

SONHO DE VOAR

 LUA MARINA - SONHO DE VOAR (Ugo Castro Alves - Gilvandro Filho) by gilvandrofilho

* musicada por Ugo Castro Alves


Salta aos olhos o que tenho pra chorar
Bebo tudo que essa sede vai passar
Canto e danço que o som vem pelo ar
Pinto e bordo que a canção renascerá
Chove em mim tempestade que caiu
E um deserto que de seco até sumiu
Abro o riso que a tristeza fugirá
Abro o peito e deixo vir o que virá

Desafio toda a sorte de azar
A princípio todo o fim assim será
Ilumino a tocha azul desse gongá
E o cristal das águas alumiará
Pelos trilhos trem daqui partiu
E um foguete pelo céu velas abriu
Me alimento desse sonho de voar
Abro a porta que a janela se abrirá

DEUS NA PRAIA


* musicada por Apá Silvino


Gravou na pedra os seus sentimentos
Para mais tarde ler tudo em voz alta
Olhou pro alto, de algo sentiu falta
...E cantou um por um todos os sete ventos

Calou no peito uma vontade morna
De dissipar possíveis euforias
Assegurou-se quanto às alegrias
...Sabendo que uma dor de amor sempre retorna

Pediu passagem à lua que era cheia
Aventurou-se à paixão mais nova
Crescentemente viu-se em plena areia
...Minguando sempre que se colocava à prova

Deitou na praia e não sonhou com nada
Arrebentou na onda o próprio peito
Silenciou. E entre medo e respeito
...Deixou apenas desfilar a madrugada

Dormiu no chão e acordou com sede
A água da chuva transformou-se em vinho
Não era um deus mas criou seu caminho
...E após os sete dias descansou na rede

Pediu passagem à lua que era cheia
Aventurou-se à paixão mais nova
Crescentemente viu-se em plena areia
...Minguando sempre que se colocava à prova

BODAS DE CRISTAL


* sobre música de Ziza Padilha


Assim como o céu e o ar
São uma coisa só
E o rio sempre a correr
Complementa o mar

Assim como beija a flor
Passarinho azul
E se o vento vem cantar
É canção de amor

E se as cordas vibram
Emoldurando a voz
É como o acontecer de um sinal

Assim é a vida
Assim foi com a gente
Intensa claridade do cristal

Tão clara como um cristal
É a luz da paixão
Guarda o brilho e dá o tom
E transborda o coração

O cristal que ilumina a voz
E recria a luz
Cristalino em seus bemóis
E em seus tons azuis

Já faz tanto tempo
Ao mesmo tempo, é hoje
Se o dia nasce é só porque eu te chamo

E se noite chega
É só porque a mesma lua
Repete a cada brilho que eu te amo

Eu te amo
Eu te amo
Eu te amo demais

PRA TENTAR VIVER

 DAYSE ADDARIO - PRA TENTAR VIVER (Ziza Padilha - Gilvandro Filho) by gilvandrofilho

* sobre música de Ziza Padilha


É... pra não ter problemas
Tinha que nem viver
Pra não viver dilemas
Só se eu fosse sem ser

Pra tentar viver e errar
Na trilha desse meu dia
Eu gelei ao sol
Me queimei na tua guerra fria

E no momento certo
Jeito de dor vencida
Eu me deixei por perto
A contemplar a vida

Dores de amor, um canto qualquer
Tema de amores perdidos
Riso que chorei
Sonhei sonhos desiludidos

Agonizei no nada
Fiz de mim mesmo o tema
E em plena madrugada
Te fiz esse poema

Eu quero ser, como espero viver
Não há mal que o coração
Não releve ao final
E não cure com o seu perdão